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Lamento de uma Ordem em Ruínas

O discurso em Davos de Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, foi recebido com entusiasmo por grande parte da comunicação social europeia. Anunciou o fim da chamada ordem internacional baseada em regras, descrevendo-o como uma rutura inevitável e não como uma simples transição. O diagnóstico da instabilidade é correto, mas o problema surge quando esse colapso é apresentado como um fenómeno quase natural, desligado das escolhas políticas e estratégicas que o tornaram possível.

A ordem que agora se desagrega não foi destruída por forças externas imprevisíveis, foi construída e mantida por decisores políticos, económicos e culturais que durante décadas beneficiaram do seu funcionamento. Não caiu por ter sido traída, mas por ter sido levada demasiado longe. Fenómenos como Trump são mais sintomas do que causas e continuam a crescer porque expõem fraturas profundas que a ordem anterior nunca resolveu: a distância entre elites e sociedades, a perda de confiança, o sentimento de abandono e a erosão de pertença num mundo organizado sobretudo por abstrações.

Para a Europa, a ordem internacional funcionou durante décadas menos por ser universalmente justa do que por ser confortável. Assentava num mundo unipolar, protegido pelo guarda-chuva americano, que garantia segurança, absorvia riscos e assumia o custo das decisões difíceis. Isso permitiu à Europa defender valores elevados, um Estado social robusto e regras universais sem enfrentar plenamente as suas contradições. Esse conforto produziu uma anestesia moral e estratégica, pois quando essas regras foram violadas, como na invasão do Iraque ou nos bombardeamentos na Síria, falou-se em exceções e contextos complexos, mas as regras não desapareceram, foram aplicadas de forma seletiva, sobretudo quando o infrator era o aliado que assegurava a nossa proteção.

O que hoje é vivido como colapso resulta, em grande medida, da perceção da exposição. A transição para um mundo multipolar, com interesses estratégicos divergentes, expôs uma fragilidade europeia para a qual a própria Europa contribuiu. Externalizou a segurança aos EUA, transformou a decisão política num processo lento e distante, desindustrializou-se em nome da eficiência, ignorando o impacto nas comunidades, e criou dependências energéticas perigosas justificadas como escolhas técnicas, esquecendo que a energia é também um instrumento de poder político.

Em paralelo, o progressismo social e institucional avançou para lá do consenso que o sustentava, perdeu contacto com o senso comum e fragmentou valores partilhados. A gestão das migrações seguiu o mesmo padrão, tratada sobretudo como um problema técnico de quotas e coordenação, ignorando que para muitas sociedades estavam em causa identidade, coesão social e capacidade real de integração. Ao reduzir o debate a números e mecanismos, a política afastou-se das populações.

Quando Carney propõe a coordenação entre potências médias, mantém a mesma lógica tecnocrática. Ao tratar conflitos políticos como problemas de coordenação, erra o diagnóstico, pois muitos conflitos não resultam da falta de diálogo, mas de interesses vitais e limites que as sociedades não aceitam ultrapassar. Reduzir os países a economias interligadas ignora que são comunidades históricas, o que alimenta ressentimento e deslegitima a decisão política.

A soberania não é um capricho nacionalista, mas a condição para que as decisões sejam reconhecidas como legítimas por quem tem de viver com elas. Sem esse reconhecimento, as regras deixam de ser vistas como justas e passam a ser sentidas como imposições externas. A ordem não nasce de fórmulas abstratas, mas do respeito por limites reais, pertença e responsabilidade partilhada.

Do ponto de vista psicológico, talvez a maior dificuldade esteja em reconhecer a própria implicação no fracasso do modelo, sendo mais fácil falar de colapso do sistema do que admitir a ilusão que o sustentou. O discurso de Davos é elegante, mas permanece defensivo, soando mais a lamento de quem percebeu que perdeu controlo do que a reflexão de quem compreendeu plenamente porquê.