Manual de Sobrevivência ao Estado: Não Morrer Fora do Prazo
1. [Quando a tragédia acontece, a culpa é tua e o apoio chega “no fim do mês”]
Há tragédias que nos lembram, com a delicadeza de uma árvore a cair em cima de um carro, que a vida é frágil. E há tragédias que nos lembram outra coisa, igualmente educativa, ainda que por vias mais cruéis: em Portugal, a maior fragilidade não é do telhado. É do discurso.
O Primeiro-Ministro, naquele instante solene em que o país espera humanidade, rigor e, já agora, português corrente, conseguiu sair-se com esta pérola: “Aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida.” Repare-se no esmero. Não é “os que morreram”. Não. É “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”. Como se a morte fosse um erro de procedimento. Uma falha de “checklist”. Uma espécie de falta de atenção no cruzamento, mas em versão definitiva. Ficamos com a sensação de que, se a vítima tivesse lido melhor o manual de instruções da existência, teria carregado no botão “Evitar Consequência Trágica” e pronto, assunto resolvido. Quem manda não ter actualizado o sistema operativo? Quem manda não ter aceitado os “termos e condições” do bom senso.
O mais fascinante, nisto, é a inversão moral. Porque a frase, sem querer, diz tudo. Não é “o Estado falhou”, não é “a protecção civil fez o que pôde e vamos apurar responsabilidades”, não é “foi um evento extremo e vamos apoiar as famílias”. É uma coisa tecnocrática, quase administrativa, como se estivéssemos a falar de um formulário mal preenchido. “Aqueles que não evitaram…” Parece o relatório de um seguro. Parece a voz do atendimento automático: “Para evitar consequências trágicas, prima 1. Para morrer com dignidade, por favor, aguarde.” E nós, como bons cidadãos, aguardamos. Sempre a aguardar. Aguardamos nos hospitais, aguardamos nos tribunais, aguardamos nas repartições, aguardamos pelas obras, aguardamos por respostas. Agora aguardamos pela empatia; a empatia que deve estar em manutenção.
Depois veio a Ministra da Administração Interna, que apareceu para cumprir aquele ritual moderno do governante em crise: falar muito para dizer pouco e dizer pouco para não se comprometer com nada. Há uma arte nisto. É a arte do ruído. A ministra, em vez de esclarecer, fez o que muitos fazem quando percebem que o assunto os ultrapassa: reconheceu não saber nada, mas com frases tão embrulhadas que nem a ignorância ficou transparente. E aqui, justiça seja feita, há mérito. Ser confuso quando se sabe pouco é humano. Ser confuso quando se admite saber pouco é quase uma performance. É como dizer: “Não sei, mas vou dizê-lo de forma tão complexa que vocês vão achar que a culpa é vossa por não entenderem.” É o “gaslighting” institucional, em tom discreto, vendido como prudência.
E então, como cereja no topo do bolo, entra o Ministro da Economia, que decidiu dar-nos uma lição de calendário. Informou que os apoios financeiros governamentais serão anunciados no final de Fevereiro e que, até lá, as pessoas têm de viver com o salário de Janeiro. É de uma elegância económica que até comove. A ideia é esta: houve prejuízos, houve perdas, houve vidas viradas do avesso, mas tenham calma, porque o Estado tem prazos. O Estado é uma criatura delicada. Precisa de tempo para sentir. Precisa de tempo para pensar. Precisa de tempo para abrir um ficheiro, imprimir um despacho, assinar com a caneta certa, digitalizar para PDF, mandar por e-mail, pedir um parecer, receber um parecer, pedir outro parecer para confirmar o primeiro parecer e, no fim, concluir que, se calhar, é melhor criar um grupo de trabalho para avaliar a necessidade de uma comissão que irá estudar a hipótese de eventualmente propor um mecanismo de apoio. É um milagre, na verdade, que ainda sobre tempo para governar.
A parte mais cómica, no entanto, é a naturalidade com que se diz a frase “vivem com o salário de Janeiro”. Como se isso fosse uma sugestão, não um soco no estômago. Como se as pessoas, em vez de estarem a pagar renda, crédito, água, luz, medicamentos, comida e o resto da lista infinita de ser pobre ou de ser classe média em Portugal, estivessem a fazer colecção de salários antigos: “Este é o salário de Janeiro de 2026, está em excelente estado, com ligeiras marcas de humilhação no canto superior direito.” Como se a vida real fosse um exercício de paciência financeira, daqueles jogos de telemóvel em que se espera a energia recarregar. Só que aqui a energia é comida, é recuperação de casas e empresas. E estas coisas não recarregam com notificações.
E depois há a frase não dita, que é sempre a mais importante. A frase que fica no ar, como humidade numa casa sem telhado: “aguentem-se”. Aguentem-se até ao final do mês. Aguentem-se até ao final do próximo. Aguentem-se até ao final do processo. Aguentem-se até ao final da legislatura. Aguentem-se, porque a máquina tem o seu ritmo. E o ritmo da máquina é sempre mais lento do que o da fome, do frio, do medo, da ansiedade de quem olha para a casa estragada e pensa: “E agora?” O Estado é pontual apenas para cobrar. Para ajudar, é contemplativo.
O mais cruel é que, no meio de tudo isso, há pessoas que perderam tudo. E quando digo tudo, não é um exagero de café. É o telhado, é o carro, é a mobília, é a oficina, é o negócio, é a estabilidade, é a sensação básica de segurança. E há quem tenha perdido a vida, aquele “pormenor” que alguns discursos tentam transformar em estatística ou em falha individual, como se a morte fosse uma espécie de desleixo. E é aqui que o sarcasmo se torna uma necessidade higiénica. Porque, se não nos rirmos, ficamos só com a náusea.
O que me irrita e, ao mesmo tempo, me faz rir com aquele riso amargo de quem já viu este filme demasiadas vezes, é a certeza com que se fala para cima de pessoas em sofrimento. Não é só falta de tacto. É uma cultura. É a cultura do discurso como cortina, do poder como linguagem que se protege a si própria. A tragédia acontece na rua, mas o discurso ocorre num aquário. Lá dentro, tudo é limpo, tudo é controlado, tudo tem palavras grandes e vazias. Cá fora, há lama, há estilhaços, há frio, há medo. E a resposta oficial é uma frase que parece escrita por um estagiário de burocracia aplicada: “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”.
Se isto fosse uma comédia, teria um final moral. Na vida real, tem só continuação. E a continuação costuma ser esta: o cidadão desenrasca-se, a imprensa passa ao assunto seguinte, a indignação evapora, os apoios chegam tarde, chegam pouco, chegam com formulários, chegam com critérios que excluem metade dos casos, e, no fim, alguém aparecerá a dizer que o Estado esteve “ao lado das populações”. Ao lado, sim. Nunca no meio, nunca em cima. Em cima é a tempestade.
Resta-me uma conclusão simples, quase pueril, portanto perigosa: quem governa tem a obrigação de falar como gente e agir como Estado. Se não sabe, aprenda. Se não consegue, substitua-se. Se não tem empatia, ao menos não insulte a inteligência colectiva com frases que parecem culpar os mortos por terem morrido e os vivos por ainda não terem preenchido o requerimento certo.
Porque, no fim, o país não precisa de poesia burocrática. Precisa de competência. E, já agora, de um mínimo de decência. Parece muito? É. Mas também não é por pedir pouco que chegámos a algum lado.
2. Maria da Graça Carvalho, Ministra do Ambiente, fez o contraponto. Apareceu na crise meteorológica como deve aparecer quem tem responsabilidades e não apenas ambições: sem o folclore dos “apelos” a fingir comando, sem aquele tom de missa laica que a política portuguesa adora quando chove muito ou há grandes incêndios. Estava lá, disse o que havia a dizer e, milagre raríssimo, não tratou os cidadãos como uma plateia de idiotas úteis a quem se pede “calma” enquanto se improvisa. Houve avisos, houve coordenação com a Agência Portuguesa do Ambiente, houve o mínimo de rigor numa altura em que o país se faz em estilhaços, e isto, em Portugal, já conta como um acto quase revolucionário.
O que me tocou, e aqui começa a parte em que o real entra pela porta dentro como o vento, foi a recusa daquele vício tão nosso de vender esperança às prestações. Falou de redes, de fragilidades, de custos, de anos, como quem diz: isto não se resolve com uma fotografia de botas enlameadas; resolve-se com trabalho caro e lento, e sim, vai doer na carteira e no tempo, porque a física não quer saber de votos. E, enquanto lá fora o país se encharcava, a ideia de colocar equipas no terreno, reforçar, planear, escolher prioridades ia-se impondo como uma espécie de vergonha útil, uma vergonha que obriga a deixar de se brincar ao Estado e a começar a governar a sério.
No fim, o elogio que posso fazer, sem poesia barata, é este: quando tudo tendeu a descambar para a choradeira institucional e para a conversa redonda, houve direcção. Não foi uma performance, foi autoridade, e isso notou-se porque não precisou de adornos. A tempestade passa, as árvores caem, a luz falha, as pessoas contam prejuízos e raivas, mas o que fica, se houver juízo, é a lembrança de que alguém, ali, não se escondeu atrás das palavras e não fingiu que mandar é o mesmo que comentar. E num país viciado em comentários, isso vale muito. Vale tudo.