Homem acusado de traficar quenianos para lutarem pela Rússia
Um homem suspeito de participar no recrutamento de quenianos para lutarem ao lado do exército russo, na guerra da Ucrânia, foi hoje acusado de tráfico de seres humanos, informou o Ministério Público do Quénia.
O queniano, de 33 anos, cuja detenção foi comunicada pela polícia no final do dia de quarta-feira, compareceu perante o Tribunal de Kahawa, nos arredores de Nairobi, onde o Ministério Público o acusou de "recrutar 22 jovens quenianos para a Rússia para os explorar através do engano".
O suspeito, que se declarou inocente perante o juiz Gideon Kiage, foi detido em 02 de outubro em Moyale [norte do Quénia], num momento de crescentes denúncias sobre recrutamentos forçados de africanos para as fileiras russas.
Questionado pela agência France-Press (AFP), o advogado considerou tratar-se de um processo "vazio", baseado em "especulações" contra o seu cliente.
O procurador disse ao tribunal que "22 vítimas de tráfico de pessoas foram resgatadas a 24 de setembro de 2025 no Athi River", a cerca de 30 quilómetros da capital, Nairobi, segundo um comunicado do Ministério Público.
"Alega-se que outras três pessoas que já tinham viajado para a Rússia se encontraram na primeira linha da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e posteriormente regressaram com ferimentos", argumentou o procurador.
"Existe risco de fuga do arguido e este caso atraiu o interesse público tanto a nível local como internacional; portanto, a população exige responsabilização após a perda de vidas na Rússia", afirmou.
O tribunal ordenou que o arguido permaneça sob custódia policial até à próxima audiência de solicitação de liberdade sob fiança.
A polícia acredita que o arguido é um "membro chave" de uma rede de tráfico de pessoas mais ampla que promete boas oportunidades de trabalho em países europeus a pessoas vulneráveis, que acabam apanhadas em "trabalhos ilegais e perigosos".
O suspeito é diretor da Global Face Human Resources, empresa que atrai quenianos vulneráveis para os transferir para a Rússia, segundo um relatório do Serviço Nacional de Inteligência queniano (NIS, em inglês), apresentado na semana passada ao parlamento.
O relatório do NIS detalha que pelo menos mil cidadãos do Quénia terão sido recrutados pela Rússia para lutar na Ucrânia, embora a Rússia tenha negado estar envolvimento nestas práticas.
Desde o início da invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, tem sido reportada a presença de centenas de africanos a lutar no lado russo.
Apesar de alguns o fazerem voluntariamente como mercenários, outros denunciaram enganos e coações.
A Ucrânia revelou que cidadãos de países como Somália, Serra Leoa, Togo, Cuba e Sri Lanka, entre outros, estão presos em campos ucranianos, embora a maioria deles morra ou fique gravemente ferida antes.
Pelo menos dois cidadãos angolanos foram recrutados pela Rússia para combater contra a Ucrânia, numa lista que contempla 1.417 africanos, segundo os dados publicados este mês pela Organização Não-Governamental (ONG) INPACT.
Segundo a investigação da ONG, foram recrutadas, ainda, no Quénia 45 pessoas, na África do Sul 32 pessoas, na Argélia 56, no Benim 15 e no Burundi 19.
Já nos Camarões o número sobe para 335, enquanto no Chade são dois, na Costa do Marfim 11 e o recorde pertence ao Egito com 361.
Etiópia, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné-Conacri, Líbia, Madagáscar, Mali, Marrocos, Mauritânia, Níger, Nigéria, Quénia, República Centro-Africana, República Popular do Congo, Ruanda, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão, Tanzânia, Togo, Tunísia, Uganda, Zâmbia e o Zimbabué são os países que fazem parte da lista da ONG.
A ofensiva militar russa no território ucraniano, lançada a 24 de fevereiro de 2022, mergulhou a Europa naquela que é considerada a crise de segurança mais grave desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).