ONU pede que "justiça plena prevaleça" em julgamento do assassínio de Marielle
Um grupo de especialistas da Organização das Nações Unidas exigiu que "a justiça plena prevaleça" no julgamento que começa esta terça-feira contra os cinco acusados de planear o assassínio da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco em 2018.
O pedido foi feito num comunicado conjunto divulgado por 16 especialistas independentes, relatores especiais e porta-vozes de grupos de trabalho da ONU, na véspera do julgamento que o Supremo Tribunal Federal inicia contra os cinco acusados de ordenar o assassínio da vereadora.
Para os especialistas, além de representar o capítulo final na busca de justiça para Marielle Franco, o julgamento é um marco importante "no combate contra a impunidade estrutural do racismo, da discriminação e da violência contra defensores dos direitos humanos, mulheres, pessoas afrodescendentes e LGBTIQ+ no Brasil".
Marielle Franco "era uma defensora dos direitos humanos que se manifestava contra o racismo sistemático, a discriminação estrutural e a brutalidade policial no Brasil. Era vítima de discriminação interseccional, especificamente da intersecção entre racismo, classismo, misoginia e preconceito com base na orientação sexual", afirmaram.
Por esse motivo, os signatários pediram que o julgamento se caracterize pela sua "equidade e transparência".
Entre os signatários do comunicado destacam-se a Relatora Especial da ONU sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância, Ashwini K.P., e o Relator Especial sobre execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias, Morris Tibdall-Binz.
Entre os cinco acusados no julgamento figuram o ex-deputado José 'Chiquinho' Brazão; o seu irmão Domingos Brazão, funcionário do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro; e o ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa.
Os três foram denunciados na confissão feita por Ronnie Lessa, ex-agente da Polícia do Rio de Janeiro e membro das milícias combatidas por Marielle Franco.
Lessa afirmou, num acordo de cooperação judicial, que os três acusados o contrataram para cometer o crime, em resposta à atividade da vereadora contra as milícias e às suas denúncias sobre negócios imobiliários que as milícias mantinham em favelas do Rio de Janeiro.
Lessa e o também ex-polícia Élcio Queiroz, assassinos confessos da ativista e do seu motorista Anderson Gomes, foram condenados a 78 anos e 9 meses de prisão, e a 59 anos e 8 meses, respetivamente, como autores materiais do crime.
Marielle Franco, militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), foi assassinada a tiro a 14 de março de 2018, depois de participar num evento político no centro da cidade.
A ativista de esquerda, lésbica, negra e nascida numa favela, destacava-se pela sua firme defesa dos direitos humanos, pelas suas iniciativas de apoio às minorias e pela sua luta contra as milícias que controlam dezenas de bairros pobres do Rio de Janeiro.