Os madeirenses continuam a consumir mais combustível apesar de pagarem mais por ele? E porquê?
Mesmo com cada vez mais carros eléctricos, a maioria continua a precisar dos combustíveis fósseis para se locomoverem na ilha. O problema são os custos mais altos que, mesmo assim não desmobilizam os automobilistas
Os madeirenses continuam a consumir mais combustível, apesar de este estar mais caro, por uma razão que os números tornam bastante clara: não é cada condutor que gasta mais, é o número de condutores e de veículos que não pára de crescer, a que se junta uma subida de preços muito desigual entre combustíveis.
Entre 2017 e 2026, o consumo total na Madeira aumentou cerca de 18%, a frota de veículos seguros aumentou cerca de 34% até 2024, e o consumo médio por veículo diminuiu.
Ou seja, o aumento do consumo total esconde, na verdade, um uso mais contido de cada carro, e a pergunta merece uma resposta mais cuidadosa do que a simples ideia de que os madeirenses "não conseguem deixar de gastar". Por isso, para responder à(s) pergunta(s) os madeirenses continuam a consumir mais combustível apesar de pagarem mais por ele? E porquê isso acontece? temos de ver números, muitos números.
Comecemos pelo consumo. Entre Janeiro e Setembro de 2017 foram vendidos cerca de 109,8 milhões de litros de combustíveis rodoviários e agrícolas na Madeira; no mesmo período de 2026 foram 130,2 milhões, um aumento de 18,5% e o valor mais alto de toda a série analisada. No terceiro trimestre, a subida face a 2017 é de 16,6%, de 39,6 para 46,2 milhões de litros. O ritmo, porém, tem abrandado: o consumo de 2026 está apenas 0,5% acima do de 2025, o que indica que o crescimento dos últimos anos, em grande parte uma recuperação depois da quebra de 2020, está a aproximar-se de um patamar de estabilidade.
Sobre os custos, é verdade que os combustíveis estão mais caros, mas convém medir bem o quanto. No terceiro trimestre de 2026, a gasolina 95 custava em média 1,864 euros por litro, contra 1,311 euros em 2010, o que representa uma subida de 42% em termos nominais. O gasóleo rodoviário passou de 1,105 para 1,892 euros, mais 71%, e o gasóleo colorido de 0,733 para 1,437 euros, quase o dobro.
Descontando a inflação acumulada desde 2010, que se estima em cerca de 35% a partir das taxas anuais do INE, a gasolina 95 está apenas cerca de 5% mais cara em termos reais, enquanto o gasóleo rodoviário está cerca de 27% mais caro e o gasóleo colorido cerca de 45%.
Dito de outra forma, o custo real da gasolina quase não mudou em dezasseis anos, ao passo que o do gasóleo subiu de forma substancial. Esta diferença é a chave para perceber o que se passa com o consumo.
O factor mais forte por detrás do aumento do consumo é o crescimento da frota automóvel. Os veículos seguros na Região passaram de 148.443 em 2017 para 198.794 em 2024, mais 50.351 veículos, e desde 2003, quando eram 90.125, a frota mais do que duplicou.
Desde 2021 cresce todos os anos entre 4% e 5%, com a pandemia de 2020 como único abrandamento claro. Com um terço mais de veículos em circulação, é natural que o consumo agregado suba, mesmo que o preço também suba, porque o aumento de preços de poucos por cento ao ano não chega para compensar um aumento do parque desta dimensão.
Há, no entanto, um dado que contraria a percepção comum. O consumo cresceu menos do que a frota (quiçá devido ao facto de não ser possível, com os dados existentes, separar o número de veículos que não precisam de combustíveis fósseis).
Entre 2017 e 2024, o consumo de Janeiro a Setembro subiu 14,1%, enquanto o número de veículos seguros subiu 33,9%. Em 2017, o consumo equivalia a cerca de 740 litros por veículo seguro; em 2024, a cerca de 630 litros, uma descida de aproximadamente 15% (valor que estará associado á cada vez maior popularidade dos veículos eléctricos/híbridos).
Os madeirenses não estão, portanto, a conduzir mais por carro, e é provável que cada veículo consuma menos, seja por motores mais eficientes, pela entrada de híbridos e eléctricos ou por outras mudanças de hábitos que os números disponíveis não permitem identificar.
Nota que os cálculos devem ser lidos como indicativos: compara o combustível vendido na Madeira, que inclui o consumido por turistas, com a frota de veículos seguros, pelo que mede uma tendência geral e não o consumo por veículo dos residentes.
Quanto à gasolina, é ela que explica quase todo o aumento. Entre Janeiro e Setembro, a gasolina 95 passou de 25,4 para 38,8 milhões de litros, um aumento de 52%, e a gasolina 98 de 6,2 para 10,0 milhões de litros, um aumento de 61%. No conjunto, a gasolina passou de cerca de 29% do consumo total em 2017 para cerca de 37,5% em 2026.
Como o preço real da gasolina 95 subiu muito pouco desde 2010, e nas médias de Janeiro a Setembro o preço de 2026 (1,754 euros) está próximo do que a inflação faria esperar face a 2017 (1,446 euros), não há um travão de custo que contrarie o crescimento. A própria subida forte de 2026, em que o preço da gasolina 95 no 3.º trimestre saltou de 1,573 para 1,864 euros, mais 18,5% em relação a 2025, ainda coincidiu com um aumento de 6% no consumo desse combustível.
O gasóleo conta uma história diferente, apesar de, por norma, os carros movidos a esse combustível consumirem menos que os a gasolina. O gasóleo rodoviário continua a ser o combustível dominante, com cerca de 61% do consumo total, mas está praticamente parado: cresceu 5,1% em Janeiro a Setembro face a 2017 e apenas 0,5% no 3.º trimestre, tendo atingido o máximo da série em 2024, com 81,5 milhões de litros, e recuado cerca de 2% desde então.
Foi precisamente o combustível cujo custo real mais subiu entre os dois principais, e o consumo reagiu, ainda que pouco. Em 2022, quando o preço do gasóleo no 3.º trimestre subiu de 1,420 para 1,747 euros, mais 23%, o consumo desceu 4,9%, de 29,2 para 27,8 milhões de litros. Em 2026, com uma nova subida de 30% no 3.º trimestre, de 1,451 para 1,892 euros, o consumo voltou a baixar, desta vez 1,1%.
Nos nove meses de 2026, o gasóleo ficou 23% mais caro do que em 2025 e o consumo caiu 1,9%, enquanto a gasolina, que ficou 11% mais cara, viu o consumo subir 5,3%. São coincidências no tempo e não prova de causalidade, mas apontam todas no mesmo sentido: o preço pesa onde o aumento é maior, embora o efeito seja modesto, já que subidas de 23% a 30% se traduzem em descidas de consumo de apenas 1% a 5%.
O gasóleo colorido, de uso agrícola, marítimo e industrial, caiu cerca de 29% desde 2017, mas representa apenas cerca de 1% do total e não altera a leitura geral. Além disso, por norma, há apoios a estes sectores fundamentais para o abastecimento das despenas e frigoríficos dos madeirenses.
É importante reconhecer o que estes dados não dizem. As tabelas mostram o que aconteceu, não porquê, e há explicações plausíveis que um leitor atento deve ter presentes como hipóteses e não como factos. Numa ilha sem alternativa ferroviária e com uma orografia que dificulta as deslocações a pé ou de bicicleta, o automóvel é muitas vezes insubstituível, e quando não há alternativa fácil a procura de combustível tende a reagir pouco ao preço, pelo menos a curto prazo.
Os dados também não incluem salários nem rendimento disponível, pelo que não se sabe se o peso do combustível no orçamento das famílias aumentou tanto como o preço.
E há a questão do turismo: o consumo na Madeira não é o mesmo que o consumo dos madeirenses, porque a tabela não separa residentes de visitantes.
Por fim, a nota de rodapé do quadro sobre veículos avisa que os números do ano todo de 2025 e de seis meses de 2026, de 6.653 e 2.752 veículos novos vendidos, respectivamente, contam apenas viaturas novas, não são comparáveis com a frota segura e não permitem, por si só, concluir que o mercado automóvel está a travar. Aliás, há muito que o número de veículos seguros terá ultrapassado os 200 mil.
Em resumo, os madeirenses consomem mais combustível apesar dos custos porque há muito mais carros, porque o custo real da gasolina, que é o combustível que mais cresce, subiu pouco desde 2010, e porque a reação da procura ao preço, quando existe, é lenta e pequena. O consumo total sobe, mas o consumo por veículo desce; o gasóleo, cujo preço real subiu muito mais, já mostra sinais de estagnação; e mesmo o salto de preços de 2026, o mais forte da série, não impediu que o consumo global se mantivesse praticamente estável.
O que falta saber é se esse salto, ainda recente, produzirá nos próximos trimestres uma descida de consumo mais visível.
Os dados utilizados provêm das tabelas de consumo e preços de combustíveis na Região Autónoma da Madeira entre 2008 e 2026 e da série de veículos seguros e veículos novos vendidos, disponíveis na informação divulgada pela DREM. A inflação acumulada desde 2010 é uma estimativa baseada nas taxas anuais do INE.
Ou seja, resumindo:
- Consumo: verdadeiro no total (+17% a +19% face a 2017), mas impulsionado pela gasolina. O gasóleo rodoviário está praticamente estável e o gasóleo colorido diminuiu.
- Preços: verdadeiro. Em 2026 os combustíveis estão mais caros do que em 2010, mesmo descontando a inflação, com uma subida real pequena na gasolina 95 e muito significativa no gasóleo.
- Mais carros: o parque cresceu bastante (+34% em 2017–2024), mas o consumo por veículo desceu cerca de 15%.