As artérias invisíveis da Globalização
Sob a superfície dos oceanos existe uma infraestrutura quase invisível, mas absolutamente vital para o funcionamento do mundo contemporâneo. Os cabos submarinos de fibra ótica transportam mais de 99% do tráfego intercontinental de dados, suportando transações financeiras, comunicações governamentais, operações militares, serviços de computação em nuvem e sistemas de inteligência artificial (IA). Sem eles, a economia digital simplesmente deixaria de funcionar.
Os cabos submarinos enfrentam múltiplas ameaças. Mais de 80% das avarias resultam da pesca comercial e das âncoras dos navios, especialmente em zonas costeiras, onde os cabos estão mais expostos à atividade humana. A estes riscos juntam-se fenómenos naturais, como sismos submarinos, deslizamentos de terra e correntes de turbidez, capazes de interromper várias ligações e comprometer a conectividade em extensas zonas geográficas.
Contudo, é no plano geopolítico que os desafios se tornam mais preocupantes. Nos últimos anos, aumentaram os receios relativamente a atos de sabotagem contra infraestruturas submarinas críticas. A guerra híbrida, conceito que combina ações convencionais e não convencionais para enfraquecer adversários, passou a incluir os cabos submarinos entre os seus potenciais alvos. A capacidade de interromper fluxos de informação tornou-se um instrumento de poder tão importante quanto o controlo de recursos energéticos ou de rotas comerciais.
África exemplifica de forma particularmente clara esta realidade. O Continente tornou-se palco de competição estratégica entre os EUA e a China para responder à crescente procura de infraestrutura digital. Empresas chinesas investiram significativamente em cabos submarinos integrados na denominada Rota da Seda Digital, enquanto gigantes tecnológicos norte-americanos, como a Google, a Meta e a Amazon, desenvolvem redes privadas próprias para sustentar a expansão da computação em nuvem e da IA.
Perante esta transformação, os atuais mecanismos de governação internacional revelam-se insuficientes. Embora a Declaração do Porto, adotada em 2026, e o Plano de Ação da União Europeia para a Segurança dos Cabos Submarinos constituam avanços relevantes, a proteção desta infraestrutura crítica continua a exigir uma estreita cooperação internacional.
Tal como as rotas marítimas determinaram o poder das nações nos séculos passados, os cabos submarinos definem, hoje, uma nova geografia do poder. Invisíveis para a maioria dos cidadãos, são eles que sustentam a economia digital, a segurança internacional e o desenvolvimento tecnológico. No século XXI, quem garantir a sua proteção estará também a proteger a soberania, a prosperidade e a resiliência das sociedades modernas.