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Já não sabemos discordar sem deixar de gostar

Fala-se do risco da inteligência artificial vir a matar-nos a todos, mas nós continuamos a matar-nos uns aos outros e, diga-se, com pouca inteligência. Normalizou-se destruir alguém com um boato, uma mentira, uma agressão gratuita ou uma ofensa. E há tanta gente a sentir-se bem com isso. Estaremos numa “nova” era selvagem do “mata e esfola”?

O extremar político, que atualmente vivemos, alimenta tudo isto. O tom de quem faz política conta. A diferença de opinião faz parte da democracia. O problema começa quando essa diferença se transforma em hostilidade, quando deixamos de discutir o que alguém defende e passamos a desprezar quem o defende. O adversário torna-se um inimigo e quem se dá com ele fica também sob suspeita.

Um político que insulta e que transforma toda a discordância numa afronta pessoal, está a incentivar que todos os cidadãos o possam fazer. Pode conseguir aplausos ou muitos likes com isso, mas deveria pensar nas consequências do que está fazer. Essa postura pode chegar à mesa de uma família ou a uma conversa entre colegas de trabalho. Falamos com preocupação das guerras, das notícias da Ucrânia e do Irão, do sofrimento de quem perde tudo. Depois, por vezes, alimentamos guerras à nossa volta por motivos que mal conseguimos explicar. Uma zanga com um vizinho ou uma perseguição no trabalho pode ocupar todos os nossos dias e afetar-nos mais diretamente do que um conflito distante.

Na Madeira, onde nos cruzamos tantas vezes com as mesmas pessoas, isto ainda é mais relevante. A pessoa que insultamos na internet pode ser o colega com quem trabalhamos amanhã. A família de quem desconfiamos por razões partidárias pode viver na porta ao lado.

Tenho uma teoria que pode parecer estranha: precisamos de despertar para a nossa própria morte. Dar-lhe um lugar no pensamento, em vez de viver como se o nosso tempo fosse inesgotável. Se soubéssemos que morreríamos amanhã, como trataríamos hoje as pessoas? Será que aquela discussão ainda mereceria uma tarde inteira?

Talvez fosse mais fácil pedir desculpa e menos importante ter a última palavra. Continuaríamos a ter opiniões diferentes, particularmente políticas, mas perceberíamos melhor o que perdemos quando deixamos que uma discordância nos incompatibilize com alguém que até temos estima.

Custa-me aceitar que uma amizade tenha de passar por um exame de fidelidade partidária. Posso combater as ideias de alguém e continuar a ter consideração por essa pessoa. Reconhecer-lhe qualidades não me obriga a mudar de convicções. O respeito permite enfrentar comportamentos injustos e pôr limites. Também nos obriga a aceitar que o outro não existe para corresponder à nossa vontade. Uma amizade não é uma coligação.

Mas há outro aspeto: vamos ficando disponíveis para desculpar aos nossos aquilo que condenamos nos outros. Uma mentira tem atenuantes se nos der jeito. Um insulto passa a ser frontalidade quando é dirigido a alguém de quem não gostamos. A certeza de pertencer ao lado certo é tão confortável que deixamos de olhar para a nossa própria conduta. É uma espécie de cegueira. E assim vem ao de cima muito do que temos de pior.

Tudo isto faz mal à democracia, mas, sobretudo, às pessoas, porque esta postura impede que se resolvam problemas. Basta olhar para a Assembleia Legislativa da Madeira, onde são raras as ocasiões em que os partidos se entendem para encontrar soluções. A maioria rejeita habitualmente propostas válidas apresentadas, nomeadamente pelo PS, e o mérito de uma ideia fica assim para trás. Entretanto, os problemas continuam, arrastam-se e agravam-se. Ganham-se votações, mas deixa-se a vida das pessoas exatamente no mesmo lugar.