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A polícia fala. O poder escuta?

Há frases que, pela sua simplicidade, explicam realidades, como uma reflexão de um colega de profissão: “Comunicação = emissor + mensagem + recetor. Se retirarmos o recetor da equação, porque não existe, não está disponível ou não quer ouvir, deixa de haver comunicação.” Esta frase leva-me a refletir sobre o que está a acontecer entre a ASPP e o Ministério da Administração Interna (MAI): as polícias estão a falar, mas estará alguém a ouvir?

Quando as mesmas preocupações regressam à agenda e as posições permanecem distantes, é legítimo questionar se estamos perante comunicação e negociação ou perante dois lados que falam sem se escutarem. Quando a ASPP aponta problemas nas carreiras, remuneração, suplementos ou condições de trabalho, a mensagem merece ser ouvida, porque negociar pressupõe reconhecer que o outro lado tem algo para dizer.

Talvez o problema não esteja na inexistência de comunicação, mas na ausência de disponibilidade para escutar aquilo que é transmitido por quem vive diariamente os problemas. O Governo tem legitimidade para defender as suas soluções, tal como a ASPP tem legitimidade para contestá-las e defender os interesses que representa, mas há uma realidade que não pode ser esquecida: as polícias são feitas de pessoas.

Por detrás de cada efetivo existe uma história profissional, anos de serviço, experiência acumulada e conhecimento adquirido no terreno.

Na Madeira, essa realidade tornou-se ainda mais evidente com a perda de dois colegas: Maria José Cardoso e Emídio Abreu. A primeira, reconhecida como a primeira mulher polícia da Madeira e a primeira mulher com autoridade policial a prestar serviço no Comando Regional, deixou-nos já na aposentação, depois de ter aberto caminho para outras mulheres e deixou o seu nome ligado à história da Polícia na Região. O segundo partiu quando se encontrava próximo da pré-aposentação.

São duas vidas, duas histórias e duas gerações que deixaram de estar entre nós, mas cuja ausência representa uma perda para uma instituição que depende dos seus profissionais. O Comando Regional ficou ainda mais desfalcado, e essa realidade não pode ser vista apenas como dois lugares a menos numa escala, porque, por detrás de cada número, existe uma pessoa e, quando essa pessoa deixa de estar disponível, alguém terá de assegurar o serviço.

Conhece-se essa realidade quando é necessário fazer mais uma escala, quando uma folga é adiada, quando uma equipa trabalha com menos elementos ou quando se pede mais a quem já deu muito. Por isso, a mensagem da ASPP deve ser escutada, porque quem está diariamente no terreno conhece as dificuldades e as consequências das decisões na capacidade de resposta da Polícia.

Maria José Cardoso e Emídio Abreu deixam-nos essa responsabilidade: a de não transformar os profissionais em números. Uma polícia forte não se constrói apenas com legislação ou equipamentos, mas sobretudo com pessoas que asseguram a missão, envelhecem na profissão, acumulam experiência e chegam à aposentação, enquanto outros partem antes de poderem dizer: “missão cumprida”.

É tempo de regressar à frase que deu origem a esta reflexão: emissor + mensagem + recetor. Se quem recebe a mensagem não estiver disponível para ouvir, a comunicação deixa de cumprir a sua função e transforma-se em palavras trocadas entre dois lados sem entendimento.

A ASPP não pede que todas as suas posições sejam aceites; pede que as suas reivindicações sejam ouvidas, discutidas e ponderadas. Não estamos apenas a falar de salários, suplementos ou carreiras, mas de pessoas, condições para cumprir uma missão e da capacidade do Estado para garantir aquilo que esperamos de uma Polícia: estar presente quando é preciso.

Por isso, no dia 14 de outubro, os polícias da Madeira vão para a rua, não para abandonar o diálogo, mas para demonstrar que, quando a voz não é ouvida à mesa, faz-se ouvir na rua.

Ouvir as polícias não é um favor. É uma obrigação de quem pretende que a comunicação se transforme verdadeiramente em diálogo.