Em Sobral, Ventura diz apoiar sem-abrigo ao mesmo tempo que pede cortes no RSI
O candidato presidencial André Ventura prometeu hoje, em Sobral de Monte Agraço, não se esquecer de dois sem-abrigo que o interpelaram. Apesar de prometer apoios, defendeu cortes no RSI, principal rendimento da maioria desta população.
Quase no início da arruada naquele município da região saloia, o também presidente do Chega foi interpelado por Rui e Olga, que lamentavam que "o pobre nunca é ajudado" e que "cada vez mais está mais pobre".
Rui Cunha, de 48 anos, lamentou que anda há um ano "à procura de sustento" e, até hoje, a Segurança Social não lhe dá resposta. Não encontra emprego, não tem casa -- vive numa caravana -- e para ter a roupa lavada ou algo para comer tem "de pedir às pessoas".
"Por isso é que o Chega tem de ganhar", acrescentou Olga, que vive com Rui na caravana.
Na resposta, o candidato apoiado pelo Chega recordou ao casal que minutos antes defendia, em declarações aos jornalistas, o corte no Rendimento Social de Inserção (RSI) e o desvio desse dinheiro para ambulâncias ou macas, apesar de aquela prestação de apoio representar cerca de 1% do orçamento da Segurança Social (segundo notícia do jornal JN de 2025).
"Nós vamos mudar essa ordem de prioridades", disse, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa falhou na ajuda aos sem-abrigo, alegando que se começou a dar prioridade às pessoas "que vêm de foram".
"Deixámos de ajudar as pessoas que verdadeiramente precisavam e que são os nossos", vincou André Ventura.
Dirigindo-se a Rui e a Olga, o candidato disse-lhes que podiam confiar nele e que não os iria dececionar.
"E confio muito", vincou Olga, que ainda ouviu de André Ventura uma garantia: "Não me vou esquecer".
Segundo o inquérito de 2024 da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem Abrigo consultado pela agência Lusa, o RSI é a fonte de rendimento mais mencionada por parte das pessoas inquiridas.
O casal repetiu a retórica do candidato presidencial, queixando-se que o Estado só "ajuda os de fora".
Questionada pelos jornalistas, Olga, de 51 anos, a viver há 20 em Sobral de Monte Agraço, explicou que os dois vivem a partir da sua prestação de inclusão social -- PSI (destinado a pessoas com um grau de incapacidade) de 320 euros.
"Todos os anos toda a gente é aumentada, mas eu não", criticou.
Também Rui dirigiu o seu ódio para os estrangeiros, alegando que estes vêm para Portugal e têm acesso a "subsídios e casas", quando para os portugueses, salientou, não há nada.
"Não me dão oportunidades e uma pessoa inscreve-se 50 vezes no centro de emprego, sempre recusado, e depois mandam-me para fora, mas eu não vou para Espanha trabalhar. O meu país é aqui", vincou, referindo que já viveu 20 anos na rua, conseguiu sair, mas voltou à situação de precariedade em que se encontra atualmente por não ter acesso a subsídios e por causa do preço das rendas.
"Aqui, uma casa custa 800, 900 paus. Um T0 custa 800, 900 paus. Quem é que consegue? Ninguém consegue sobreviver com as rendas enormes e os ordenados super-pequenos", vincou Olga.
Mais à frente na arruada, depois de uma ginja e um cacho de bananas -- umas para amigos, outras para adversários escorregarem no chão -, André Ventura ouviu mais lamentos -- um de um pensionista com uma reforma "pequenina" e outra de um ex-emigrante em França que voltou ao país.
"Espero bem que ganhe as eleições que é para ver se a gente corre com metade da malta daqui para fora. Fui emigrante durante 21 anos em França e tive de lá sair. [...] Em Portugal, temos um grave problema com o socialismo e com os democratas. Foram muitos anos", disse o homem, que se assumiu militante do Chega.
Apesar da militância, o homem afirmou que não acredita que André Ventura seja eleito Presidente da República nestas eleições.
"Será difícil", disse.
Já a aproximar-se do final da única ação de campanha que tem hoje, André Ventura contrariou essa ideia e reafirmou aos jornalistas a vontade de ir a uma segunda volta e lutar para vencer essas eleições.