Economia que mata
No dia 4 de outubro de 2025 foi publicada, no primeiro ano de pontificado do novo Papa, a Exortação Apostólica intitulada Dilexi Te (DT).
O Papa Leão XIV traça uma reflexão profunda sobre as causas da pobreza: «Os pobres não existem por acaso ou por um cego e amargo destino. Muito menos a pobreza é uma escolha, para a maioria deles. No entanto, ainda há quem ouse afirmá-lo, demonstrando cegueira e crueldade» (DT 14).
Pobres não são apenas aqueles que não trabalham. Muitos dos trabalhadores vivem na pobreza. Por exemplo, em Portugal, mesmo com emprego, 9 em cada 100 trabalhadores eram pobres, revelam dos dados do ICOR de 2024. A existência de uma percentagem tão expressiva de pessoas que apesar de terem trabalho não conseguem evitar a pobreza é um dos dados inquietantes da situação social em Portugal.
Em suma, lê-se num dos pontos centrais da Dilexi Te, não se pode dizer «que a maioria dos pobres estão nessa situação porque não obtiveram méritos, de acordo com a falsa visão da meritocracia, segundo a qual parece que só têm méritos aqueles que tiveram sucesso na vida» (DT 14).
O Papa alerta para a facto de que não basta o aumento da riqueza, dos indicadores favoráveis do PIB para que exista redução da pobreza numa sociedade. «Há regras económicas que foram eficazes para o crescimento, mas não de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e assim nascem novas pobrezas» (DT 13).
Essa é a economia que mata, que assenta nas estruturas da injustiça.
Os pobres e a pobreza são indissociáveis dessas estruturas da injustiça, de «ideias sociais e sistemas político-económicos injustos, favoráveis aos mais fortes» (DT 11), que favorecem a acumulação de riquezas à custa da exploração, que fazem os lucros de poucos crescerem exponencialmente (DT 92).
Os pobres e a pobreza são inseparáveis da “economia que mata”. Entre os pobres e a pobreza existe um nexo direto com a “ditadura de uma economia que mata”. «Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras» (DT 92).
Sem que sejam alterados aqueles mecanismos económicos, a pobreza e a exclusão social continuarão a ser uma realidade; sem tocar as regras económicas que aumentam a riqueza, “mas sem equidade”, persistirão as gritantes desigualdades e injustiças sociais: «A falta de equidade é a raiz dos males sociais» (DT 94).
É, por isso, imperiosa uma rutura com a «economia que mata».