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Como diz a minha amiga Sherly, “corram pela vida”

A minha amiga Sherly tem agilidade física, mas gosta tanto de correr como de comer ouriços com picos. E diz sempre que se um dia a virmos correr, podemos “correr pela vida, porque alguma coisa grave está a acontecer”. “Fujam”, está sempre a avisar. Entendo perfeitamente a Sherly, o que não entendo é esta geração que acha que filmar tudo e mais um par de botas é o que rende mais gostos nas redes sociais e fica a filmar uma discoteca a arder em vez de correr pela vida.

A noção do perigo é uma coisa que não os assiste, como dizia o outro. Que raio de geração criamos, seja na Suíça, seja em Portugal, que acha giro mostrar ao mundo o corredor de morte em que se meteram. O que mais me assusta é não ter sido um ou dois, mas pelos ângulos dos vídeos que vimos, percebemos que eram vários os jovens que filmavam o tecto a arder por cima das suas cabeças e um único rapaz a tentar, enquanto conseguiu, apagar as chamas com uma peça de roupa.

Que geração é esta que foi engolida pelas redes sociais e pelo bullying, pelo ciberbullying e por todo o género de coisas sem nexo que dão visualizações e protagonismo? Não sei se algum daqueles jovens que filmou o caos ficou entre os 40 corpos carbonizados, mas não me admirava nada que isso tivesse acontecido. Ou a dose de droga ou álcool era demasiada para perceberem verdadeiramente o que se estava a passar.

Já tinha pensado nesta máxima da Sherly no dia do incêndio no bar da Suíça, mas voltei a pensar nela ontem, quando li no DIÁRIO que o ainda Presidente da República promulgou, com dúvidas, a portaria do malfadado subsídio de mobilidade. Pelo amor da santa, “com dúvidas”.

Está na hora de corrermos pela vida. Até já ouço a Sherly a dizer “fujam, porque alguma coisa está a acontecer”. E está. Agora se me esquecer de pagar o Imposto Único Automóvel porque o Governo central não sabe quando é que altera o mês dos pagamentos, não posso andar de avião. Quer dizer, posso ir de barco para o Porto Santo, porque tenho o carro ilegal, mas não posso entrar num avião. Ou melhor, posso, mas tenho de pagar uma viagem mais barata que o subsídio. Acho que o Celinho está com a máquina a dar as últimas. Andamos nós aqui a tentar perceber afinal em que século é que começamos a pagar o IUC todos no mesmo mês, por causa do (des)governo de Lisboa e há um palhaço qualquer, vestido de ministro, que se lembra de me culpar por ter nascido num calhau.

Como não estou a falar em nenhum dos candidatos presidenciais, posso escrever sobre o tipo que está de saída. Dúvidas? Dúvidas? O homem tem dúvidas e manda publicar uma portaria? Olhe, faça o mesmo com os passageiros da CP. Se tiverem dívidas ao Estado não podem andar de comboio. Acho mesmo que o sistema afundou como o Titanic. Partido ao meio entre um governo que brinca com meio milhão de ilhéus e um Chefe de Estado que devia ir morar para um ilhéu a partir de 9 de Março. Mas vá a nado, já que tanto gosta, porque ainda lhe pedem a declaração de não-dívida às Finanças e à Segurança Social. E se encontrar a Sherly, corra pela vida, ande em cima de água como Jesus Cristo, porque ela não é nada mansa.