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Análise

Um ano de oportunidades e expectativa

Muita atenção aos dinheiros europeus. Há projectos atrasados e pode haver verbas devolvidas

A Madeira entra em 2026 num momento charneira: celebra meio século de Autonomia, está politicamente estabilizada após dois anos de turbulência, mas enfrenta pressões sociais reais e precisa de afirmar a sua voz num País e numa Europa em mudança constante.

A ementa comemorativa dos 50 anos não basta; exige-se visão, responsabilidade e coragem para aprofundar a Autonomia sem cair no comodismo do “já fizemos muito” desde 1976. A revisão constitucional, reclamada como prioridade regional, com ambição de sistema fiscal próprio, maior intervenção nas decisões nacionais e eliminação de figuras institucionais desajustadas, faz sentido se servir melhor os cidadãos, a economia e a coesão social. Contudo é uma ambição que não deverá ser realizada neste ano. O xadrez parlamentar na Assembleia da República não o permite. Nesse aspecto tudo ficará, em princípio, na mesma.

Em termos económicos, o Governo Regional aponta para um crescimento moderado, mas sustentado, com aposta num orçamento robusto, política fiscal mais ajustada e equitativa, reforço do investimento público, aumento das condições salariais e estabilidade. Há confiança, mas também risco: estabilidade não pode tornar-se imobilismo. Os desafios na saúde, na habitação, na equidade social e na credibilização da gestão pública exigem execução rigorosa e capacidade de correcção. Muita atenção aos dinheiros europeus. Há projectos atrasados e pode haver verbas a se devolvidas.

O discurso de “ano de consolidação” só valerá se for acompanhado de resultados tangíveis na vida das pessoas.

No turismo, sector que sustenta a economia regional, 2026 será decisivo. A Madeira enfrenta o dilema das regiões bem-sucedidas e premiadas: como continuar a crescer sem destruir aquilo que a torna única? A estratégia do Governo para reorganizar o turismo de natureza, introduzir taxas de gestão ambiental, limitar fluxos em zonas sensíveis e responsabilizar visitantes e operadores, é um passo estrutural. Mas será também um teste político e social: será que a Região consegue equilibrar a ‘galinha dos ovos de ouro’, o direito dos residentes à qualidade de vida e a preservação do património natural? A resposta exigirá liderança, fiscalização firme e pedagogia pública.

Há ainda outro eixo incontornável: a transição tecnológica. A corrida global à Inteligência Artificial vai mexer com emprego, administração pública, educação, economia e democracia. Ou a Madeira investe cedo, forma pessoas, capacita empresas e moderniza a máquina pública, ou ficará dependente e vulnerável. A AI pode ser aliada do desenvolvimento regional, na saúde, na gestão pública, no turismo, na educação, mas só o será com planeamento, ética, investimento e visão estratégica.

Finalmente, a relação com a República entra num momento de prova. 2025 trouxe gestos simbólicos e aproximação política; 2026 terá de trazer soluções concretas: revisão da Lei das Finanças Regionais, resposta aos dossiers da saúde, melhoria efectiva da mobilidade, justiça financeira e respeito institucional. Sem resultados, o diálogo perde credibilidade e a Autonomia, com 50 anos, perde substância.

A Madeira chega a 2026 com bases sólidas, mas com interrogações sérias. A Autonomia só honra o seu legado se continuar a ser instrumento de progresso, justiça social, modernidade e afirmação política. O futuro exige coragem, compromisso com a verdade e capacidade de decidir.