Seguro e Pessegueiro
Dois candidatos a eleições distintas, a mesma luta: salvar a esquerda. António José Seguro é candidato a Presidente da República e Célia Pessegueiro foi recentemente eleita Presidente do PS Madeira. São ambos socialistas, enfrentarão momentos decisivos em janeiro e partilham uma missão difícil: preservar o espaço político da esquerda, na Madeira e no país.
A esquerda chega às eleições presidenciais numa situação extraordinariamente difícil. Depois do sucesso eleitoral que permitiu que o PS governasse entre 2015 e 2024, primeiro com o apoio da restante esquerda parlamentar e depois sozinho, as últimas eleições traduziram-se num recuo histórico para a esquerda, com perda de votos e deputados. A única exceção, ilusória, foi o Livre, que cresceu, mas à custa de outros partidos de esquerda. E se, por um lado, a força do PCP, que assentava na base popular das classes trabalhadoras e mais desfavorecidas do país, parece transferir-se para a extrema-direita, sem travão, por outro, a elite intelectual da esquerda urbana que deu origem ao BE transferiu-se para o Livre, sem capacidade de ampliação. Enquanto isso acontecia, o PS perdeu o voto qualificado e das novas gerações.
A direita já tem a Presidência da República; a Presidência da Assembleia da República e uma maioria parlamentar constitucional de dois terços; o Primeiro-Ministro e o Governo da República; os Governos das Regiões Autónomas; a maioria dos municípios e freguesias, com a liderança das respetivas associações nacionais; e a presidência das principais autarquias do país, entre as quais Lisboa, Porto, Funchal e Ponta Delgada. Se as sondagens estiverem certas e tendo em conta os últimos resultados eleitorais, excluindo o voto transversal que Gouveia e Melo parece recolher, à esquerda tradicional parecem restar entre 20 e 25% dos votos, a dividir por quatro candidatos, do PS, Livre, BE e PCP.
Na Madeira, as causas do problema são de natureza distinta, com raízes históricas mais profundas e, também por isso, de muito mais difícil resolução. O momento de maior aproximação entre diversas forças partidárias registou-se nas autárquicas de 2013, na candidatura que saiu vencedora no Funchal, mas, a partir daí, o caminho foi sempre de perda: primeiro, da base partidária alargada de entendimento que se criou, com divisões que foram destruindo sucessivas coligações; depois, da base eleitoral que se construiu e que, após atingir a sua máxima expressão nas autárquicas de 2017 e nas regionais de 2019, se esfumou completamente. A esquerda esteve quase – mas não chegou, não só mas também porque não foi capaz de se entender entre si. E se, em 2019, muitos viram no voto útil no PS a origem de todo o mal, o último ciclo eleitoral confirmou um problema maior: na Madeira, a esquerda à esquerda do PS já não tem um único eleito – nem para uma Assembleia de Freguesia, nem Municipal, nem Regional, nem Nacional. Mas o descalabro não ficou por aí: JPP e PS têm, juntos, o mesmo número de deputados que o PS tinha sozinho entre 2019 e 2023; e o PS apresenta a menor representação parlamentar dos últimos dez anos, a que se soma o quase total desaparecimento em muitas freguesias e concelhos da região. As razões do desastre socialista são conhecidas e dispensam explicações adicionais.
É neste cenário político que Seguro e Pessegueiro são candidatos a eleições diferentes, mas iguais no objetivo fundamental: evitar o desapareciment+o da esquerda e manter uma base eleitoral mínima que permita, depois, a partir do plano partidário, reconstruir uma alternativa sólida e credível para um ciclo político distinto do atual – que ninguém sabe quanto tempo durará, nem quão profundamente se estabelecerá nos planos partidário, político, social, económico e, porventura, constitucional. Uma realidade bem conhecida dos madeirenses; uma realidade relativamente nova no país.
Sobre o entusiasmo que Seguro ou Pessegueiro geram, cada um fará a sua própria avaliação. Seguro tem o mérito de ter sido o único candidato socialista disponível para avançar, antes de todos os outros e mesmo quando o apoio do seu partido de sempre, o PS, não estava garantido; Célia Pessegueiro tornou-se candidata depois de Ricardo Franco apresentar essa intenção, nas condições que se conhecem. Para fazer o quê, como e com quem, só o tempo responderá.
Certo é que se segue um momento decisivo para a esquerda, que precisa de gerar uma nova esperança, capaz de mobilizar os seus mais fiéis, mas também novos eleitores. A missão de Seguro e Pessegueiro é árdua, mas longe de impossível. Por também passar por cada um de nós, no próximo domingo, dia 11, Seguro contará com o meu voto antecipado – que representará também a esperança de toda a esquerda numa segunda volta. Vamos a isso.
P.S. O caso Leandro Silva choca, inclusive a reação coletiva generalizada: permissiva e indigna.