Memento Mori
Nunca fui de concertos, até porque a minha claustrofobia também não ajudava
Com a cadência dos anos, a noção de finitude instala-se.
Com o passar de cada ano a noção da finitude alheia torna-se ainda mais real.
Quando era adolescente, entre os 12 e os 15, por aí, o meu grupo preferido era os UB40, aquele do “Red, red wine”. Passava horas a ouvi-los numa cassete e um dia inteiro a gravar o dia a si dedicado na extinta VH1, numa VHS, outro tipo de cassete, mas de vídeo, caso alguém com menos de trinta anos me esteja a ler. Era um gosto.
Dos elementos dos UB40, dois já se foram, Brian Travis e “Astro”, ambos em 2021. Nunca tive a oportunidade de assistir a um concerto, vê-los ao vivo, sentir a vibração do reggae misturado com pop e sotaque dos arredores londrinos. Sei que o vocalista, Ali Campbell continua a atuar e se regressarem a Portugal, quem sabe não irei, mas UB40 sem o rap rouco de “Astro” e o seu “Rat in the Kitchen” não é a mesma coisa.
Entretanto o meu gosto musical, com tudo, evoluiu e, por épocas da obtenção da minha carta de condução, a música que acompanhava as minhas viagens rodoviárias eram Depeche Mode, Smashing Pumpkins, The Doors, Pearl Jam (que abandonei porque gostava de cantar e não percebia quase nada do que diziam), Radiohead, António Variações, Guns’n´Roses, entre outros.
Alguns, já nessa altura, tinham partido, outros deixaram de atuar. Mas, Depeche Mode impactou-me. Depeche Mode acompanhou a minha entrada na vida adulta com as suas letras acutilantes e verdadeiras: “Enjoy the silence”; “Walking in my shoes”, “Condemnation”, tantas, tantas que fiz minhas, como tantos fizeram suas.
Chocou-me a morte de Andrew Fletcher e o grupo que em 1995 se tornara um trio, passa a duo, não sem antes Dave Gahan e Martin Gore se terem aventurado a solo. Uma oportunidade para conhecer a voz melodiosa e o timbre limpo da voz deste último, já que o vocalista da banda, pelo menos o principal sempre fora Dave Gahan. Confesso que preferi as experiências a solo de Gore às de Gahan, a sua voz suave como uma canção de embalar acompanha-me frequentemente no final dum dia de vozes estridentes a me saturar os ouvidos.
Nunca fui de concertos, até porque a minha claustrofobia também não ajudava, mas com a noção da finitude amenizam-se, pelo menos no meu caso, na mesma proporção, as fobias e quando soube que o duo Depeche Mode viria atuar a Lisboa ataquei os bilhetes como se não houvesse amanhã, até porque podia não haver. Fui assistir, no Golden Circle, com o meu irmão, o melhor concerto até hoje: intimista, não obstante num “Meo Arena” a rebentar pelas costuras, numa mescla de canções do novo álbum “Memento Mori”, dedicado ao falecido Fletcher e outras, de sempre. Foi um sonho tornado realidade.
Um momento de luxo que valeu cada cliente exigente, cada comentário facebookiano maldoso, cada injustiça política. Foi uma catarse que levarei guardada, para sempre, na minha mente e no meu coração.
E porque “Memento Mori”, cada vez mais, tomei a decisão de tentar assistir àqueles grupos que me acompanharam, enquanto eles aí estão, enquanto eu aqui estou. E fui, acompanhada da minha família, ao concerto dos “Gun´s´Roses, em Coimbra. Verdade. Axl Rose já não é um jovenzinho e a sua voz rouca e naturalmente gasta já não se pode comparar, mas assistir ao virtuosismo de Slash a dedilhar a guitarra como quem estala falangetas e Axl Rose ao piano a interpretar “November Rain”, a minha canção favorita, foi o suficiente para me levar a uma torrente de lágrimas que arrastou não só a emoção de estar a ouvi-la ao vivo, mas a maldade que me puseram s carregar aos ombros. Foi uma verdadeira depuração e esse é um dos melhores efeitos secundários da música.
Entretanto já fui a outros concertos, como o dos Alphaville, que estava praticamente vazio, o que me deixou um pouco desconfortável, mas onde pude assistir a “Forever Young” abraçada ao meu filho e a outros tantos musicais.
Este ano, se Deus quiser, e acompanhando os gostos musicais do meu filho, apreciador de grupos coincidentes com os meus, mas também de outros mais pessoais, como System of a Down ou Acid Bath, lá iremos, perseguindo a vida, enquanto não nos escorrega pelas mãos, entre os dedos.
Memento Mori