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O porquê e o como

Fui à procura das pessoas mais ou menos conhecidas no panorama mundial das artes que faleceram no ano passado e deparei-me com uma estatística curiosa. Verifiquei apenas os primeiros 6 meses do ano e, entre os 285 nomes consultados, mais de 200 viveram mais de 70 anos. O número de artistas na faixa dos 70 e dos 80 anos revelou-se ser igual (81), mas houve ainda 35 pessoas na casa dos 90 e 6 com mais de 100 anos. Na União Europeia, a percentagem de nonagenários é de 1% e de centenários 0,02%. Nesta amostra (que, reconhecidamente, não é propriamente científica) a percentagem de nonagenários é de 12.28% e dos centenários 2.1%. Surpreendente?

Há estudos que referem que o nível de intelecto e de educação se correlaciona diretamente com longevidade. De facto, artigos em revistas sobre a longevidade incomum de músicos clássicos são numerosos mas nem sempre espelham a realidade, concentrando-se nos exemplos singulares.

O pianista Arthur Rubinstein tocou em público durante 85 dos seus 95 anos, continuando a se apresentar até quase os 90. O seu conterrâneo e contemporâneo Mieczysław Horszowski viveu mais de 100 anos (faltava-lhe um mês até 101), tocou o seu último recital de piano com mais de 99 e deu a sua última aula uma semana antes da sua morte. Pablo Casals tocou uma das suítes para violoncelo de Bach todos os dias até sua morte, aos 96 anos. Vladimir Horowitz concluiu a sua última gravação apenas 4 dias antes de falecer, aos 85 anos. Já perto dos 90, Arturo Toscanini dirigiu o ciclo completo das Sinfonias de Beethoven no Carnegie Hall.

Especula-se muito sobre a ligação entre a longevidade e a música clássica. Num estudo com mais de 49.000 pessoas com perfil criativo, Anisimov e Zharinov (2013) escreveram que “pessoas que ouvem música clássica têm mais hipótese de viver mais,” atribuindo isso às descobertas sobre as capacidades cognitivas dos músicos clássicos.

Ou será que a música é o “algo” pelo qual esses músicos vivem? O que dá sentido às suas vidas?

Um crescente corpo de pesquisas mostra que os benefícios para a saúde de ter um propósito são notavelmente consistentes. Riscos significativamente menores de morte, doenças cardíacas, derrame e Alzheimer foram encontrados entre pessoas com um maior senso de propósito na vida.

Claro que separar os efeitos do propósito de vida de outros fatores não é inequívoco. As pessoas com mais propósito de vida talvez se alimentem melhor ou se exercitem mais.

A ciência roga que ter um senso de propósito na vida proporciona benefícios para a saúde. Esse bem-estar, resultante de ter um propósito além da autogratificação, é distinto do bem-estar hedónico, que se concentra apenas no prazer e nas recompensas efémeras. Pessoas com altos níveis de bem-estar apresentam menor expressão de genes inflamatórios e maior expressão de genes para anticorpos que combatem doenças.

Neste contexto, um número crescente de pesquisas demonstra que o contacto com as artes não é apenas um passatempo agradável mas o qual pode impactar significativamente a qualidade de vida, melhorando a capacidade cognitiva, a saúde mental e o bem-estar físico. De facto, o contacto com as artes pode alterar as vias neurais no nosso cérebro. Um novo campo de estudo, chamado neuroestética, concentra-se especificamente na exploração da resposta à arte, à beleza e a outros estímulos estéticos.

O Congresso Americano de Medicina de Reabilitação relata que tanto a criação quanto a apreciação de arte podem elevar os níveis de serotonina, aumentar o fluxo sanguíneo para a parte do cérebro associada ao prazer, fomentar novas formas de pensar e instilar uma perspetiva mais positiva em relação ao futuro.

Em soma, parece menos importante se se trata de fazer ou de desfrutar – o importante é ser envolvido, com um propósito. Parafraseando Nietzsche, “Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como”.