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O ato de contrição

Há momentos em que a política deixa de ser um confronto de ideias para se tornar num espetáculo de extraordinária indigência. Não indigência material, que essa merece respeito. Falo da indigência moral, aquela pobreza de espírito que se revela quando o argumento escasseia e a alarvidade toma o seu lugar natural.

Há comportamentos que não são apenas indignos. São reveladores. Revelam caráter, revelam uma amputada mediocridade e revelam, sobretudo, a miséria moral de quem os pratica. O aparte proferido pelo autoproclamado representante da virtude encenada - “quando estavas com algemas não falavas assim” - não foi um deslize. Foi um reflexo. Um daqueles momentos em que a máscara cai e o verniz estala.

Não houve ali ironia humorística, nem crítica política, nem provocação relevante. Houve apenas a escolha consciente de substituir o argumento pela insinuação, o debate pela humilhação, a política pelo ataque pessoal, e a decência pela lama - que é, afinal, a sua condição e irremediável destino. Isto não é confronto democrático. É miséria cívica.

O gesto que se seguiu ficou aquém da dignidade mínima exigível a uma retratação pública. Foi apenas uma manobra de conveniência, pensada para limitar estragos e proteger a imagem. Um exercício de autopreservação, não de responsabilidade. Onde devia ter havido caráter, houve cálculo.

Há quem goste de se apresentar como guardião da decência, de invocar valores cristãos, de citar a Bíblia como se fosse um certificado de virtude. Mas a santimónia transforma-se rapidamente em agressividade. O moralismo, sem princípios, resvala para o insulto. E o discurso da elevação acaba invariavelmente na sarjeta.

O Parlamento não é uma tasca nem um ringue de frustrações pessoais. É um órgão de soberania. Quem ali troca argumentos por insinuações não está a fazer política: comporta-se como um arruaceiro de microfone na mão. Não é frontalidade, nem tão pouco coragem. É pobreza intelectual. Quem prefere a calúnia ao argumento não exerce oposição, expõe, sim, a sua própria mediocridade - intelectual e moral.

George Orwell mostrou como a degradação da linguagem abre caminho à degradação da política. Neste caso, nem sequer há a inteligência cínica dos porcos do livro O Triunfo dos Porcos. Há apenas a rudeza primária dos broncos que acreditam que falar baixo, mal e torto é sinal de força.

O povo não precisa de rasteiras, nem de insinuações, nem de lama verbal para existir. Quem leva este comportamento ao hemiciclo não representa o eleitorado, representa apenas a sua própria vulgaridade, a sua frustração mal disfarçada, a sua vaidade mesquinha, e a sua absoluta falta de estatura política.

A política pode ser dura. O confronto é legítimo. A crítica é necessária. Mas há uma diferença clara entre firmeza e sordidez. Entre combatividade e canalhice. Entre oposição e degradação. Quem cruza essa linha não está a ser combativo, está a ser miserável.

Há comportamentos que não são apenas lamentáveis. São reveladores. Revelam o caráter - ou pior, a falta dele. Revelam, sobretudo, a profunda miséria moral de quem prefere a lama à ideia, o insulto ao argumento e o ruído ao pensamento.

A política revela-se na linguagem que escolhe. Quando o Parlamento se entrega à grosseria, à insinuação rasteira e ao ataque pessoal, não está a empobrecer o debate, está a desfigurar a própria ideia de representação democrática. E uma democracia que tolera a baixeza eticamente abjeta, como explica Orwell, não se fortalece - apodrece.