Que Presidente desejamos para Portugal?
A segunda volta das Eleições Presidenciais obriga a uma reflexão serena sobre o papel do Presidente da República no atual contexto político português. Mais do que uma disputa entre personalidades, está em causa a forma como o mais alto magistrado da Nação encara as suas responsabilidades constitucionais e o impacto que a sua atuação poderá ter na estabilidade democrática.
As funções do Presidente da República exigem equilíbrio, contenção, sentido de Estado e compreensão clara dos limites do poder presidencial.
António José Seguro apresenta-se como candidato alinhado com esta visão institucional da Presidência. O seu percurso político revela valorização do diálogo democrático, respeito pela separação de poderes e defesa da estabilidade como bem público. Uma Presidência exercida nestes termos contribui para a previsibilidade do sistema político e para a confiança dos cidadãos nas instituições.
O mesmo não se pode dizer de André Ventura. A lógica de confronto permanente, a deslegitimação das instituições e a personalização excessiva do debate político levantam sérias reservas quanto à sua adequação ao cargo de Presidente. Um chefe de Estado que transforma o conflito em modo de estar na vida em comunidade corre o risco de fragilizar o sistema político e aprofundar clivagens sociais.
A dimensão internacional é igualmente relevante. Portugal beneficia de uma política externa baseada no multilateralismo, credibilidade institucional e previsibilidade, especialmente nesta fase de relações frágeis entre os Estados Unidos, a União Europeia e a NATO. Ventura tem assumido proximidade política e simbólica ao estilo de liderança de Donald Trump, criticando acordos entre a União Europeia e os Estados Unidos e defendendo uma lógica de afirmação nacional que se afasta da tradição diplomática portuguesa. Para Ventura, “há momentos na vida em que usar a força é fazer a paz”, invocando confronto ativo como meio legítimo em negociações internacionais.
Deixo, contudo, para reflexão, a mensagem do atual Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, no Parlamento Europeu, na sessão comemorativa dos 40 anos da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, onde defendeu que ninguém consegue resolver sozinho os grandes problemas globais, que é necessária a cooperação, especialmente na Europa e com aliados como os EUA, e que “não há quem consiga hoje refazer pela força a divisão do mundo em hemisférios”. Relembrou ainda que “não há portugueses puros, há portugueses diversos”, evidenciando a diversidade histórica e cultural do país e salientando que Portugal é “europeu desde as raízes”.
Por fim, a crescente preocupação com a desinformação no espaço público é central. Estudos recentes indicam que 82,4 % da desinformação na campanha presidencial esteve associada a André Ventura, com conteúdos falsos ou manipulados a atingir milhões de visualizações. Nas legislativas de 2025, mais de 81 % dos casos de desinformação também se relacionaram com conteúdos divulgados pelo partido Chega, evidenciando um padrão preocupante de manipulação do debate público.
Pergunta-se: que cidadão deseja ser manipulado ou enganado? Um Presidente deve ser garante da verdade institucional e da elevação do debate público, não beneficiário da sua degradação.
Neste quadro, a escolha presidencial é simples: deve privilegiar estabilidade, respeito pelas instituições e compromisso democrático. A Presidência exige sobriedade, não protagonismo. Responsabilidade, não ruído. É nesta perspetiva que António José Seguro se apresenta como a opção ponderada, humanista e progressista que Portugal precisa.