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Sem indústria, a diplomacia europeia fica desarmada

A guerra na Ucrânia obrigou a Europa a enfrentar uma vulnerabilidade que durante demasiado tempo foi negligenciada: a segurança não se garante somente com diplomacia ou integração económica, mas com uma capacidade industrial e militar capaz de lhes dar sustentação real. A célebre frase de Bismarck — “a diplomacia sem armas é música sem instrumentos” — é hoje mais atual do que nunca. E a verdade é que a Europa continua sem a base industrial necessária para assegurar a sua defesa de forma autónoma.

Mesmo com orçamentos de defesa em crescimento, a indústria europeia permanece presa a modelos tradicionais. Contudo, o cenário internacional mudou profundamente. A Europa precisa de produzir mais, mais depressa e a custos reduzidos. Isso exige uma transformação estrutural de um setor habituado a longos períodos de paz.

A fragmentação industrial agrava esta fragilidade. Muitos Estados Membros continuam a adquirir armamento fora da União Europeia, sobretudo nos E.U.A. Tal facto perpetua dependências que limitam a autonomia estratégica europeia. Talento e tecnologia não faltam, mas falta escala e sem escala não existe verdadeira capacidade de dissuasão.

Num contexto de conflito prolongado, seria ilusório esperar que Washington pudesse suprir rapidamente as necessidades europeias, sobretudo num momento em que as prioridades norte-americanas deslocam-se para a região Indo Pacífico. A Europa precisa, por isso, de uma base industrial própria, capaz de produzir em grande escala e sem vulnerabilidades externas que comprometam a sua capacidade de resposta. As lições da guerra na Ucrânia são inequívocas. A eficácia militar continua a depender da combinação entre tecnologia e capacidades tradicionais — uma complementaridade que só uma indústria sólida, resiliente e adaptável consegue garantir.

A diplomacia europeia só será eficaz se for acompanhada de capacidades militares e industriais credíveis. Permanecer na plateia enquanto outros definem o futuro da segurança europeia é incompatível com a ambição de ser um ator global relevante e com a necessidade de garantir a sua própria proteção.

Em suma, o reforço da capacidade industrial de defesa constitui hoje um elemento central para consolidar a autonomia estratégica europeia. A Europa dispõe dos recursos, do conhecimento e do talento necessários para se afirmar como um ator estratégico plenamente maduro. O desafio reside agora na capacidade de convergir vontades políticas e esse será, mais do que qualquer sistema de armas, o verdadeiro indicador da determinação europeia em garantir a sua segurança e o seu papel na cena internacional.