Teerão acusada de "assassínios em massa"
Human Rights Watch (HRW) pediu à ONU reunião urgente do Conselho dos Direitos Humanos
A Human Rights Watch (HRW) acusou hoje as forças de segurança iranianas de "assassínios em massa", após a escalada dos protestos no país, e pediu à ONU que "convoque urgentemente" uma sessão especial do Conselho dos Direitos Humanos.
"Os assassínios em massa cometidos pelas forças de segurança iranianas desde 08 de janeiro não têm precedentes e recordam de forma contundente de que os governantes que massacram o próprio povo continuarão a cometer atrocidades até serem responsabilizados", disse a diretora de programas da HRW, Lama Fakih, citada num comunicado.
O Irão está a ser agitado por uma nova vaga de protestos desde 28 de dezembro, iniciada em Teerão por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país.
De acordo com a HRW, as forças de segurança do Irão levaram a cabo "assassínios em massa" de manifestantes "depois da escalada dos protestos em todo o país, em 08 de janeiro de 2026".
Após a data, nota a organização não-governamental (ONG), as forças de segurança "intensificaram a repressão mortal de forma coordenada, resultando em mortes e ferimentos em larga escala de manifestantes e civis em todo o país".
Na nota, a HRW diz ter analisado "provas de que muitos manifestantes foram mortos ou feridos por tiros na cabeça e no tronco".
"Acredita-se que milhares de manifestantes e civis tenham sido mortos, enquanto as severas restrições de comunicação impostas pelo Governo ocultaram a verdadeira dimensão das atrocidades", lê-se no documento.
Neste sentido, apelou Lama Fakih, os Estados-membros das Nações Unidas devem "convocar urgentemente uma sessão especial do Conselho dos Direitos Humanos da ONU para colocar os direitos humanos e a responsabilização no Irão no centro da resposta internacional".
"Devem solicitar à Missão Internacional Independente de Apuração dos Factos sobre o Irão que realize uma investigação especial sobre estas atrocidades recentes e apresente recomendações concretas para promover a responsabilização", lê-se ainda na nota.
Entre 12 a 14 de janeiro, a HRW disse que falou com 21 pessoas, incluindo testemunhas, familiares de vítimas, jornalistas, defensores dos direitos humanos, profissionais de saúde e outras fontes informadas.
Alguns partilharam "capturas de ecrã com relatos de testemunhas, mensagens áudio e imagens", continua a HRW, dizendo que analisou ainda 51 fotografias e vídeos verificados, publicados nas redes sociais ou enviados diretamente para investigadores, além de ter consultado o Grupo Independente de Especialistas Forenses do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura, que reviu imagens de ferimentos.
"Apesar das severas restrições à comunicação, a Human Rights Watch conseguiu obter e analisar provas de assassínios de manifestantes em algumas províncias, incluindo Teerão, Alborz, Kermanshah, Razavi Khorasan, Gilan, Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad, Markazi e Mazandaran", disse.
De acordo com dados divulgados na quarta-feira pela organização Iran Human Rights, com sede em Oslo, pelo menos 3.428 pessoas foram mortas durante o movimento de protesto, com base em informações confirmadas diretamente pela organização ou com base em testemunhas e fontes médicas e de morgues.
Estimativas de outras organizações apontam para um mínimo de 2.637 mortos e acima de 12 mil.
No comunicado da HRW, a organização refere ainda que os meios de comunicação estatais noticiaram a morte de pelo menos 121 membros das forças de segurança e verificaram imagens de manifestantes envolvidos em atos de violência.
No entanto, diz a ONG, não foi possível avaliar de forma independente a credibilidade destes números.