Ano Novo, Vida Nova?...
Fazer um balanço de 2025 é olhar para um mundo que parece ter perdido o pudor de se observar ao espelho. As guerras prolongaram-se como se a violência fosse um ruído de fundo inevitável, e a Faixa de Gaza tornou-se um símbolo doloroso da falência moral da comunidade internacional, assim como a guerra na Ucrânia e outros conflitos e massacres menos mediáticos. Fala-se muito, age-se pouco, e normaliza-se o inaceitável. A palavra “genocídio”, pesada e histórica, voltou ao vocabulário quotidiano, dita com indignação por algumas pessoas e com indiferença por outras, como se a repetição lhe retirasse gravidade.
Em paralelo, vivemos num mundo de aparências cuidadosamente filtradas. As redes sociais continuam a vender felicidade instantânea, corpos perfeitos, soluções milagrosas e opiniões pré-embaladas. A diversidade é celebrada em discurso, mas na prática assiste-se a uma tentativa subtil — e por vezes agressiva — de uniformizar mentes e corpos. Quem não se encaixa, quem abranda, quem duvida e questiona, corre o risco de ser silenciado/a pelo algoritmo. A liberdade transforma-se num slogan enquanto a diferença real incomoda.
Esta normalização da violência manifesta-se também no espaço mais íntimo. A violência doméstica continua a atravessar casas e silêncios, muitas vezes invisível aos olhos públicos. Em 2025, voltou a ser evidente como as vítimas são frequentemente revitimizadas quando, por exaustão, medo ou dependência e falta de autoestima, perdoam os agressores. Este perdão transforma-se numa armadilha moral: espera-se que a vítima compreenda, aguente e recomece, enquanto a responsabilidade se dilui e o ciclo repete-se, também devido às limitações ou interpretações das leis. Há um longo caminho a percorrer…
Mas 2025 não foi apenas um ano de crises globais; foi também um ano de confronto íntimo. Para mim, foi um tempo de cansaços acumulados e desilusões persistentes. As solicitações foram muitas e os recursos, poucos. Houve dias em que a sensação dominante era a de não conseguir dar conta do que me era pedido, mesmo dando tudo. A escassez não foi apenas material; foi também de tempo, de energia, de margem para errar.
A saúde ressentiu-se dessa pressão constante, das exigências – muitas vezes internas – e da correria normalizada. O corpo, esse território tantas vezes ignorado, começou a cobrar atenção. Aprendi, nem sempre da forma mais suave, que resistir não é o mesmo que viver, e que suportar não pode ser um projeto de longo prazo. Num mundo que glorifica a produtividade e a superação contínua, admitir fragilidade é quase um ato de rebeldia. É preciso mais valorização, leveza e humanismo.
Talvez o maior desafio de 2025 tenha sido este: manter a humanidade num contexto que a desgasta, por fora e por dentro. Entre o ruído global e o tumulto pessoal, ficou a certeza de que pensar, sentir e cuidar — de nós e das outras pessoas — continua a ser um gesto profundamente político. Num tempo que tenta uniformizar, escolher a consciência, a pausa e a lucidez pode não mudar o mundo de imediato, mas muda, pelo menos, a forma como nele permanecemos. E a mudança começa sempre de dentro para fora. Que seja a palavra de ordem em 2026. Feliz Ano Novo.