A fé na continuidade
O recente sufrágio madeirense foi cristalino. A democracia mostrou-se exuberante como a Laurissilva, mas a ética afundou-se mais na sepultura.
J. Stuart Mill, um liberal, filósofo e parlamentar inglês do século XIX, enfatizava as “regras de conduta” enquanto conjunto adicional de princípios, que, embora não tendo força de lei, formam a ética liberal, cuja observância evita disfunções no sistema democrático.
A autonomia madeirense apresenta perturbações há muito tempo, mas, só foi abalada, quando alegados comportamentos catapultaram do plano ético, para a dimensão judicial.
Ainda assim a justiça não abalou a “fé” do povo, numa governação de suspeitas condutas. A nossa exigência tem meio-século de mínimos. Uma vasta lista do PSD foi eleita, saltando de dentro dos Kinder-surpresa, naquele domingo à noite, o que faz depreender que, tal como na paixão, a democracia permite-nos encarcerar na cegueira.
Alguns dirão, que os madeirenses optaram pela estabilidade, como se fosse a panaceia da democracia, mas, há regimes totalitários estáveis, que trucidam qualquer laivo democrático.
Aquele adágio: “eles roubam, mas fazem”, poderá ter aqui algum conforto empírico, pois a troca de “cartéis mexicanos” é fortemente desaconselhada.
Os mais ressabiados (como eu) vêm isto como um guião tricotado, para manter espíritos afunilados por décadas de poder monocromático, quase ao nível das comunidades Maasai no Quénia, cujo devir é determinado pelos xamãs Laibon, ao “lerem” as entranhas de um caprino esventrado para o efeito.
Para quem só conhece uma única governação partidária, com a fé na Santa Madre Igreja ao poder comodamente encostada, a teórica mudança de paradigma, faz recear o cataclismo, tal como o asteroide precipitado na Península de Yucatán, que erradicou os grandes sáurios e alterou a vida na Terra. Daí a tendência a desculpar o desvio ético, e a fixar agasalho, no paradoxal “cativeiro da autonomia”, onde tecemos a átona existência, com a fruição de mais um novo feriado, em jeito de apologia do regime, como mordaz prolongamento do dia das petas.
Não sei se temos fraca memória com visão obtusa, mas o nosso coração é generoso no perdão. As imagens da Madeira a arder no passado mês de agosto, enquanto o presidente-arguido se refastelava no areal do Porto Santo, só nos eleva ao patamar, do mais manso povo do mundo. Um quadro tão distante no tempo e na forma, daquele edil funchalense de 20 de fevereiro de 2010. Provavelmente o exército de funcionários públicos (como eu), e demais benesses parasitadas pelo séquito de bajuladores, que ascendem a mais de 20% da população ativa, ajudem a explicar esta sociologia insana. Manuel António Correia, após acender uma ténue labareda que acalentou esperanças, apenas “queimou” seguidores na pira da traição, esfumando-se.
A economia está de “boa saúde”, mas mal chega aos bolsos das pessoas, para fazer face ao quotidiano. Contudo tenho cada vez mais a impressão, de que essas dificuldades, são estoicamente abraçadas pelo povo, enquanto mortificação do tempo pascal que se avizinha.
Continuemos, pois, assim: alienados, mas felizes!