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Crónicas

Pescadinha de rabo na boca

A minha mãe não é perfeita. Eu não sou perfeita. Espero que as minhas filhas, se escolherem ser mães, não sonhem em escalar até essa categoria mitológica. É que ser mãe é tudo o que nos contam e romantizam e é, sobretudo, o que ninguém nos conta.

“Tens de apostar no autocuidado, tens de ir jantar fora, viajar, ir ao ginásio, tens de estar com energia para cuidares das miúdas.” Muitos aplaudirão: “é isso mesmo”, já eu digo: “não é nada disso!” Sim, gostava muito de jantar fora, de viajar, de ir ao ginásio e mil e uma outras coisas, só que a minha intenção, em qualquer uma dessas ações, será sempre a de sentir-me bem comigo própria, ou seja: sentir bem-estar físico, emocional, intelectual, e não para ter mais energia para cuidar das minhas filhas, isso será uma consequência natural. Portanto, este tipo de autocuidado apregoado é o que chamo de ‘pescadinha de rabo na boca’. Se querem mesmo ajudar uma mãe, parece-me mais útil proporem (e sobretudo, fazerem) coisas como: “deixa as crianças comigo e vai fazer nada!”, ou “a que horas posso ir ter a tua casa, quero pôr em prática o que aprendi sobre arrumação de roupeiros e gavetas, mas quero-te fora de casa, vai passear”… exemplos não faltarão. Libertem as mães para que possam ser apenas mulheres. Não para que ganhem mais energia para continuar a cuidar dos filhos, de tudo e mais um par de botas!

Quantas vezes escutámos ou até já desabafámos coisas como: “já não sei o que fazer. Sinto-me a afundar! Sinto-me um polvo e não sei como dar conta de tudo. Não sei onde ir buscar mais forças. Não estou a ser a mãe que quero ser e também não estou a ser a mulher que quero ser. Estou esgotada.” A mãe de hoje é uma espécie de mulher-polvo. Assume variadíssimos papéis diários: mãe, esposa, filha, profissional, amiga… A mãe de hoje, tem como grande desafio acordar o inconsciente e gerir a distorção e generalização da informação que lhe foi transmitida pelo exemplo das gerações anteriores, da cultura e da sociedade. É um facto que ainda é esperado que nós, mulheres e mães, continuemos a assumir a gestão da família e do lar. O mesmo não acontece com o homem. E quando um homem o faz, é imediatamente elogiado e reconhecido como alguém especial. Vejo acontecer com o meu companheiro. A mim ninguém pergunta como é que concilio o dia-a-dia das meninas (levar e buscar às escolas, terapias, conservatório, extras, alimentação e afins), da profissão de jornalista, de autora, de moderadora, e tudo o mais. Já ao meu companheiro, há quem lhe pergunte como consegue conciliar a vida militar com a vida de atleta internacional, de treinador e de pai. E é super reconhecido e elogiado pelo sucesso e presença, em todas as áreas.

Mães, descansem o corpo e a alma! Se há certeza que a maternidade nos traz é esta: mais tarde ou mais cedo, vamos falhar! Todas falhamos! Nenhuma mulher está preparada para ser mãe. Quando nasce uma criança não nasce uma mãe. A mãe constrói-se diariamente. É essencial que aconteça em consciência, com curiosidade, igual valor e dignidade, em integridade e responsabilidade pessoal. Quando percebemos isto e incorporamos, percebemos também que quando sentimos que as exigências sobre nós estão a aumentar, quando vestimos a capa de super-mulher e ainda assim, os nossos recursos estão a diminuir, escancarámos a porta à Síndrome da Mãe Burnout. Acontece muito quando não temos uma rede de apoio, seja familiar, seja de amigos ou comunitária. É o mito da perfeição e do estereótipo a entrar em ação na maternidade, no relacionamento amoroso, na gestão da casa, na área profissional e social.

O psicólogo Rick Hanson cunhou o termo: ‘síndrome das mães esgotadas’. Hanson destaca o cansaço físico, emocional e mental das mães, que acabam por ficar drenadas de nutrientes, força e vitalidade. Reforça ainda a importância das mães reencontrarem a força necessária para estarem presentes nelas e para elas próprias e, desde um lugar seguro e são, estarem aptas a gerir o papel de cuidadoras.

É possível ser uma mãe perfeita, uma dona de casa exemplar, boa amante, esposa, profissional de topo, com um corpo cuidado e esbelto? Bem, sim, se considerarmos que somos sempre perfeitas nas nossas imperfeições. Portanto, além de tudo isto podemos ser ainda sorridentes, bem-dispostas, feministas, etc… Só não precisa de ser tudo ao mesmo tempo.

Ser mãe, presente, em todas as frentes, não mata, mas mói. Há dias em que só apetece fugir! E se a mãe não tem uma comunidade que lhe ofereça colo, é, muitas vezes invadida pelo cansaço mental e emocional e estes são os mais desafiantes de lidar. A alegria começa a dar lugar à tristeza, à apatia, a ansiedade invade o corpo e a alma, a motivação esvai-se, a clareza ofusca-se, a paciência eclipsa-se. E mães, quando andarem descuidadas, com excesso de peso, não culpem a maternidade, deixem de dizer que é normal porque são mães. Não é. Não deve ser. Sei bem que é desafiante, que ficamos sem um terço do tempo disponível que tínhamos antes de sermos mães e sei também que, tantas vezes, a maternidade é usada como desculpa para permanecer no lugar de vítima e não assumir responsabilidade pessoal. Pode passar, por exemplo, por dormir mais horas, dizer mais vezes não (sem culpas), estabelecer limites, pausar as redes sociais, ingerir alimentação saudável, hidratação adequada.

Um dos ditados que mais ressoa em mim, é africano. Diz-nos que é preciso uma aldeia para educar uma criança. Mães, chegou a hora de assumir responsabilidade e construir ou reunir a vossa aldeia, por muito desafiante que possa ser (e sei do que falo) ou entram em burnout. Não vai haver cafeína, nem açúcar que vos salve, garanto!

Ser mãe, exercer parentalidade é criar e nutrir uma relação, não é dominar ferramentas e técnicas. A solução está sempre na relação. Não é sobre perfeição. É sobre conexão. O melhor prémio que podemos receber é o de deitarmo-nos, todas as noites, com o coração em paz, com a consciência de que fizemos o melhor que pudemos e soubemos, desde um lugar presença e amor incondicional.