Crónicas

Sociedade submergível

Qualquer vida, seja ela qual for, merece todo o empenho possível para a salvar. Seja um ricalhaço que pagou 250 mil dólares para conhecer de perto o famoso barco naufragado ou um migrante ilegal

Quanto vale uma vida? Há vidas que valem mais do que outras? Esta semana com a confirmação da morte dos 5 tripulantes do submergível que tinha como missão uma viagem turística ao Titanic e com todos os meios que vimos envolvidos na tentativa de resgate do mesmo, quando ainda se acreditava que pudesse ser encontrado com um desfecho feliz, rapidamente se levantaram vozes a comparar a parafernália usada para encontrar expedição com a falta de recursos em relação ao apoio e suporte dos milhares de migrantes que todas as semanas tentam chegar à Europa. É muito fácil cairmos numa dialética populista assente em fundamentos pouco claros e que nos podem trazer aplausos imediatos, mas nós que escrevemos em meios de comunicação com a responsabilidade de assumirmos as nossas própria posições, devemos também pugnar pela verdade e pelo compromisso com os dados que temos à nossa disposição, comparando o que é comparável e não caindo na tentação de escrever o que as pessoas querem ler.

Qualquer vida, seja ela qual for, merece todo o empenho possível para a salvar. Seja um ricalhaço que pagou 250 mil dólares para conhecer de perto o famoso barco naufragado ou um migrante ilegal, encaixotado num barco sem as mínimas condições. Vale o mesmo. Merecem os dois tudo o que pudermos fazer. Se estamos a fazer tudo o que podemos para não permitir que as tragédias com os migrantes não se repitam? Provavelmente não. Mas mais do que uma questão de meios é sobretudo uma questão estratégica. Mais do que fazer o paralelismo entre as duas situações acho que devemos começar a olhar com mais atenção para certas zonas do nosso planeta, que embora pareçam longínquas são habitadas por pessoas como nós, com as mesmas fragilidades e motivações. A questão dos migrantes por exemplo, não é um problema de barcos nem de operações de resgate, mas sim da forma como os países de onde vêm conseguem criar condições para que ninguém tenha que fugir num barco sem as mínimas condições para albergar tanta gente. Se alguém se sujeita a morrer para fugir de alguma coisa, é porque aquilo de que foge é de facto impactante.

A minha passagem pelo Brasil e por África fez-me perceber que o valor da vida não é igual em todo o lado. Há sítios em que se mata por pouco, sem o mínimo de remorso e arrisca-se muito sem medo das consequências. Provavelmente porque existe pouco a perder ou porque há quem sinta que a nossa existência é pouco valiosa. Faz-me confusão ver imagens da guerra na Ucrânia e a forma como já olhamos para essas imagens sem que nos faça alguma confusão. Soldados mortos, estendidos no chão, que devem ter família, talvez filhos ou pais, amigos, mulheres que estarão algures dilacerados pela perda. Por ali o valor da vida esgota-se num par de tiros ou numa granada, de uma forma quase indiferente. É apenas um meio para atingir um fim. A verdade é que tendemos a ficar mais chocados com umas mortes do que outras, seja pela proximidade ou pela forma como os meios de comunicação as transmitem. Como se umas vidas valessem mais do que outras.

Estamos inseridos numa sociedade submergível que se move a diferentes velocidades e que ainda não conseguiu, no século XXI, instaurar o mesmo valor da vida em todos os pontos dos diferentes continentes. Esse deveria ser o ponto de partida para a evolução da humanidade. Que todos conseguissem perceber, de igual forma, o significado da vida.