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Redução do balanço do BCE vai fazer subir taxas de juro da dívida portuguesa

Balanço é utilizado como ferramenta de política monetária restritiva para diminuir a quantidade de liquidez na economia

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A redução da dívida que o BCE acumulou no balanço vai fazer subir os juros da dívida portuguesa e obrigar a encontrar compradores alternativos para os títulos ou diminuir a dívida pública líquida, segundo os analistas consultados pela Lusa.

O Banco Central Europeu (BCE) já anunciou que a partir de março de 2023 vai iniciar o 'Quantitative Easing' (QE), isto é, um aperto do balanço, utilizado como ferramenta de política monetária restritiva para diminuir a quantidade de liquidez na economia, em contraponto à compra em larga escala de títulos.

As alterações terão impacto para Portugal e para os países dos quais o BCE é o comprador líquido de grande parte dos títulos de dívida, assinalam os economistas.

"[O aperto do balanço] irá afetar Portugal, porque desaparece um comprador importante e permanente da dívida pública portuguesa. À partida fará subir das taxas de juro da dívida soberana", antecipa Filipe Garcia, presidente da IMF -- Informação de Mercados Financeiros.

Uma opinião partilhada por Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa, que assinala que "a saída do mercado de um comprador com o peso que o BCE tem, irá sempre criar pressão tanto na dívida nacional como na de outras geografias".

"Portugal está no presente economicamente melhor do que no início do ciclo de descida de taxas e tal tem sido visível no 'spread' versus a Alemanha. No entanto, é bem possível que venhamos a ver uma subida das 'yields', pelo menos até o mercado estabilizar e encontrar a taxa neutral para a Europa", prevê.

Perante o cenário em que os países deixarão de ter o BCE como comprador líquido da sua dívida, Pedro Lino, CEO da Optimize Investment Partners, considera que estes países "devem encontrar outros compradores ou então reduzir o défice".

"No caso português, os 235 milhões previstos entre março e junho não são relevantes no contexto da dívida pública total. O problema é a partir de julho se o BCE quiser ser bastante agressivo, podendo ditar uma maior pressão. Esta apenas pode ser evitada com o controlo da despesa pública e sempre que possível diminuição da dívida pública líquida", defende o analista.

É também, neste sentido, que Miguel Faria e Castro, economista na Federal Reserve Bank of St. Louis, realça que "a partir do momento em que o BCE começa a reduzir o seu balanço, o Estado perde uma fonte importante de financiamento. É difícil não ter impacto orçamental".

"As taxas de juro da dívida vão aumentar" e "vamos assistir a alargamento dos 'spreads'", refere o economista.

No entanto, Filipe Garcia considera que o QE "no limite vai levar a uma secagem de liquidez, mas não sabemos muito bem a que ritmo vai ser", descartando que o BCE não intervenha -- até porque tem uma nova ferramenta - se os juros de países como Itália, Grécia, Espanha e Portugal começarem a subir muito".

"O papel principal do BCE é manter o euro e para isso a crise das dívidas ajudou a perceber que há risco. Não me parece que o BCE se vá dar ao luxo de querer experimentar uma outra crise da dívida", argumenta.

Neste contexto, Filipe Silva considera que "o IGCP - Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública deverá gerir a curva de endividamento portuguesa de forma a tentar não subir muito o custo médio da dívida, pelo que terá de ser relativamente ágil na escolha das diferentes maturidades em função do atual ciclo económico, e perspetivas de taxas futuras".

"O 'spread' poderá subir e até poderemos sofrer um bocado de contágio do resto dos países da periferia, no entanto, se conseguirmos posteriormente mostrar com dados económicos que a economia se mantém resiliente, tal deverá ajudar a que este não escale tanto", sublinha.

Assim, uma estratégia de manter a curva de rendimentos "relativamente equilibrada" é a receita prescrita por Filipe Garcia, para quem "o importante é não ter concentrações, para que em nenhum ano haja um peso particular nas amortizações".

Posição em linha com a de Pedro Lino, que advoga que "níveis de concentração de reembolsos em poucos anos é arriscado, porque não sabemos se estamos perante uma situação de mercado de 'stress' e seja mais difícil emitir dívida".

"O período de taxas negativas deveria ter sido aproveitado para uma maior agressividade nesse alongamento da maturidade, ou aumento da dívida pública bruta, janela que se fechou entretanto", acrescenta o analista.