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In memoriam George Floyd

À palavra de ordem “Black lives matter” eu contraponho: “All lives matter”. Todas as vidas interessam!

Estou completamente convencido que George Floyd anda às voltas no túmulo. Estou cada vez mais convencido que a sua morte não foi em vão, mas cada vez mais a sua morte está sendo aproveitada por interesses obscuros que nada têm a ver com os nobres valores que terão sido violados por quem provocou ou foi cúmplice pela sua morte. Desde o polícia que o sufocou cm o joelho, aos agentes e colegas que presenciaram, impavidamente, a morte de mais um preto...

Todo o clamor que se viveu nos dias seguintes em muitas cidades dos Estados Unidos da América, potenciado pelas afirmações do desastrado Donald Trump, têm vindo a espalhar-se por todo o mundo.

As boas razões iniciais de combate ao racismoe ao despotismo e de defesa pelo respeito da vida humana têm vindo a transformar-se em fundamentalismos tolos e sem razão.

Temos vindo a assistir às notícias de que, por todo o mundo, as pessoas se vão manifestando contra o despotismo e o racismo. Até aqui subscrevo completamente. No entanto, quando vejo vandalizarem-se monumentos e destruírem-se estátuas porque, na sua génese, está uma razão não consentânea com os valores actuais, fico preocupado e acredito piamente que se trata dum aproveitamento em que as pessoas, tipo carneirada, se envolvem sem conhecerem as razões e os valores históricos e culturais da época em que se construiu e perpetuou.

Na senda deste percurso, vejo que daqui a pouco e no nosso contexto madeirense, estaremos em manifestações contra João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo. Se não fossem eles, não teríamos 500 anos de colonia, 48 anos de ditadura salazarenta e 46 de democracia...

Para além disso, deveríamos ir ao cerne da questão. Por isso, deveríamos eliminar a Escola de Sagres, onde o Infante D. Henrique terá incentivado as descobertas. Mais ainda, o Mosteiro de Aljubarrota deveria ir abaixo e assim acabar com tudo o que lembrasse D. João I, seu pai. E porque não destruir o Convento de Alcobaça, onde jazem os restos mortais de seu avô, D. Pedro I. E continuando a trajectória, porque não deitar abaixo a Igreja de Santa Cruz, onde jazem os restos mortais de D. Afonso Henriques, o primeiro responsável de toda a senda lusitana.

E em termos culturais, começaríamos por queimar tudo o que tivesse a assinatura de Luís Vaz de Camões. Afinal desmereceu outras religiões, outros povos e outras paragens. Discriminação mais do que evidente.

Poderia continuar com esta retórica. Ao fim dalguns parágrafos, até acabaria com Adão e Eva, com a raça humana e todo o ser vivo.

Por isso, acho que os extremismos que levaram à morte de George Floyd são tão condenáveis como os extremismos que estão a levar à tentativa de “matar” a História, transpondo para os tempos actuais, os valores e as culturas doutras épocas que fizeram com que sejamos e tenhamos hoje os benefícios resultantes dum processo evolutivo que passou por essas épocas.

Acho que a História tem muitos erros e enganos. Mas o presente e o futuro constroem-se, hoje, corrigindo os erros do passado com as experiências entretanto adquiridas.

Por isso, nenhum George Floyd não merece ser recordado desta maneira. É pelas piores razões e subverte os princípios pelos quais morreu. Não é destruindo a História que tivemos, mas construindo uma nova História.

À palavra de ordem “Black lives matter” eu contraponho: “All lives matter”. Todas as vidas interessam!

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