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A lagartixa e o caimão

Um velho ditado reza assim: “quem nasceu lagartixa não chega a jacaré”.

Nascido e criado em ilha de lagartixas, confesso não ter apetência para jacaré.

Tenho tido, sim, a boa fortuna de ter passado por muitos sítios neste mundo onde os há em quantidade e de ter falado com numerosos membros desta prestimosa classe de répteis, os mais parecidos com os dinossauros que ainda sobrevivem neste mundo ávido de dar cabo de espécies atrás de espécies, incluindo a espécie humana (mas isso são contas para outro rosário).

Tenho conversado e convivido com muitos jacarés, daqueles que mordem se ou quando quiserem, mas que têm tido a decência de me acolher como se um deles fosse (ser um pouco para o bem nutrido às vezes dá jeito),

trocando ideias e saberes sem me diferenciarem, mas deixando claro que lagartixa é lagartixa e jacaré é jacaré. Não que me importe com isso, pois assim posso ser uma lagartixa com um saber de jacaré. Não vale de muito nesta terra de lagartixas, mas tem valido imenso para o desenvolvimento desta lagartixa em particular e, por isso, estou reconhecido.

O problema é que (e isto é válido tanto para as ilhas como para o continente adjacente onde, mesmo havendo alguns jacarés, as lagartixas são, também, maioria)

há muitas que se querem alcandorar a ser algo maior em termos de género. O que, de acordo com Darwin, não se afigura tarefa fácil nos próximos milénios, caso o género humano não dê cabo em definitivo de toda e qualquer forma de vida vigente no Planeta.

Mas as nuances da vida levam a que algumas consigam algum tipo de transformação, que não de evolução, como adiante se verá.

Tenho para mim não haver mal algum em ser-se lagartixa, numa terra de lagartixas feita de propósito para ter lagartixas, não jacarés.

Não entendo pois esta mania em querer ser algo que não se pode ser. A ganância, a vaidade, a prosápia, o ego inflado que lava uns a quererem ser mais do que aquilo que são na realidade pode ser uma explicação, não a única certamente, mas uma explicação. Um denominador comum no entanto será sempre a vontade de parecer mais do que aquilo para que se nasceu.

Mas há um grau intermédio na cadeia da evolução, ainda dentro do mesmo género do enorme reino animal onde nos inserimos que, não sendo ainda um jacaré, tem algumas parecenças físicas, sendo aqui que acabam por cair muitos dos que, sendo lagartixas, continuando lagartixas, gostariam de chegar a jacaré. Falo de um bicharoco que se chama caimão.

É o que temos visto por aí. Há muita lagartixa que foi engordando e engordando, aumentando de tamanho de tal forma que quando se mira ao espelho julga que já chegou a jacaré. E dá-se ares de tal, como se o fenótipo se sobrepusesse ao genótipo.

Falso! Chegou a caimão, o tal grau intermédio (não é bem assim, bem sei, mas serve para o propósito da prosa presente, se me é permitida alguma labilidade de imaginação) de que falei antes.

Se não, vejamos:

- caimão na Caixa Geral de Depósitos

- caimão no BES, BANIF, BPN, etc.

- caimão em tudo o que é lugar público apetecível para posterior transição para o sector privado em lugar ainda mais apetecível

- caimão em tudo o que seja um bom concurso público

- caimão nas listas de candidatos a cargos públicos

- caimão em tudo o que tenha a palavra presidente, director, geral, secre, que digo, similar...

Enfim... caimão, não jacaré, é para onde “evoluem” algumas lagartixas à medida que se vão vendo maiores no espelho da ganância e da vaidade.

E eu, lagartixa, me confesso: ficarei sempre lagartixa, aprendendo com os jacarés que me queiram ensinar, evoluindo enquanto lagartixa sabendo que nunca serei jacaré, tal como nunca o serão os outros, porque tal como a lagartixa nunca um caimão chegará a jacaré, por muito que a sua mão caia em domínios de jacarés, a quem bastará uma dentada para que o caimão fique sem a dita.