“Honra” e “orgulho” por agraciar o “nosso” Cardeal
Presidente do Parlamento madeirense, José Manuel Rodrigues, não se poupou nos elogios a Tolentino Mendonça
“É uma enorme Honra receber hoje, nesta Casa Mãe da Democracia e da Autonomia, Sua Eminência D. José Tolentino Mendonça”, começou por frisar o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira no Acto Solene de Atribuição da Medalha de Mérito ao Cardeal madeirense.
“Para os Representantes do nosso povo é com infindável Orgulho que agraciamos o ‘nosso’ Cardeal com a mais alta condecoração da Região Autónoma da Madeira”, acrescentou José Manuel Rodrigues. “Nada mais justo para quem fez um percurso inigualável na Igreja Católica sem nunca esquecer as suas raízes de ilhéu e as suas origens”.
O político salientou ainda que “para uma terra que assinala o seiscentésimo da sua História, marcada pelo cristianismo, não havia melhor prenda que ver um dos seus ilustres filhos, oriundo de Machico, terra onde aportaram os primeiros descobridores da ilha, ser escolhido como um dos eleitos para o Colégio de Cardeais da Igreja Católica”, lembra. “Quanta Honra e quanto Orgulho para todos nós, D. José Tolentino!”, exclamou.
Reportando à História, José Manuel Rodrigues lembrou que “esta Diocese que já foi a maior do Mundo e que levou a Mensagem de Cristo a tantos povos, volta a ter um dos seus numa Missão relevantíssima para uma Igreja que se procura regenerar, rejuvenescer e ir ao encontro de novas realidades, de outras crenças e de diferentes culturas”.
Por outro lado, não deixou de realçar que Tolentino Mendonça “é a expressão real da Cultura do Encontro de que tanto fala o Papa Francisco, da necessidade de olhar o Outro, mesmo o não crente, não como um estranho, ou como mais um, mas como alguém que precisa de ser ouvido e com quem se pode aprender e conviver”. E acrescentou: “Os seus diálogos com o mundo da Cultura e das Artes em Portugal, através das sua poesia, das suas crónicas e das interações com os criadores, abriram novos caminhos à Igreja portuguesa e fizeram com que muitos regressassem à fé e que outros olhassem e lessem de outra forma os Evangelhos.”
Continuando nos elogios, o representante máximo da ALRAM reconhece no Cardeal “a árdua tarefa da transpor para toda a Igreja essa abertura e essa modernidade que não pode ser confundida com relativismo ou hedonismo, pois é tão somente voltar às origens de uma Igreja que sabe estar com quem cria e sabe, mas também sabe levantar do chão os que sofrem e os que ficam na ultraperiferia do desenvolvimento”.
E até cita os escritos do homenageado. “Num dos seus livros escreve, com toda a razão, que este é um Mundo onde faltam Mestres, ‘onde temos especialistas de todo o género, com uma sociedade de peritos e onde mais do que nunca a técnica e a ciência impõem os seus padrões. Mas faltam-nos guias capazes de fazer uma síntese, competentes na arte de iluminar aquilo que vivemos’ e defende a necessidade da sabedoria, a sabedoria que ‘significa uma visão global, um olhar de conjunto que abarque não apenas a parte, mas a completude; não apenas o que fomos, mas o que somos e seremos’. Acrescenta o Sr. Cardeal que ‘a sabedoria é uma narrativa capaz de conter o nosso nascer, o nosso maturar e o nosso morrer, essa espécie de sofreguidão e paz, de delícia e dor, essa singular poeira enamorada que a vida constitui’. E termina questionando-se: ‘Não sei se faltam mestres ou não à época contemporânea. Se calhar eles existem, mas exprimindo-se de forma inesperada ou incómoda e não queremos ouvi-los’”.
Continuando, Rodrigues assume que “nós queremos ouvi-lo Sr. Cardeal, mesmo que as suas palavras possam criar-nos, por vezes, inquietação e desassossego”. E aponta: “Estou certo, estamos todos certos que o ‘nosso’ Cardeal pelo que já fez, pelo que faz e, sobretudo pelo que já demonstrou ser capaz de fazer, saberá ser esse Mestre que ajudará a fazer emergir uma Igreja para os nossos tempos, sem abdicar da Doutrina e dos Valores imutáveis do Cristianismo.”
Um mundo de incertezas e a mão protectora
Recordando que “ostentamos na nossa bandeira, a Cruz de Cristo, porque aqui começou uma etapa da evangelização de novos mundos e aqui se iniciou um encontro de culturas e de civilizações, em grande parte protagonizado pela Igreja”, mas também porque “somos uma terra pequena, mas de grandes feitos e heroísmos, que tem dado ao Mundo alguns dos seus melhores nas mais variadas expressões, desde a Cultura ao Desporto e desde a Arte à Religião”, sem esquecer que “a nossa Diáspora, que rasgou os horizontes, levou a todo o lado a força do seu trabalho e a crença na sua fé, sem nunca ignorar as suas origens e o orgulho na sua terra”, José Manuel Rodrigues reforça que “nos aeroportos, lê-se que ‘quem chega, nunca esquece de onde partiu’ e esta máxima aplica-se a estes tempos difíceis em que o drama dos migrantes e refugiados inquieta-nos, interpela-nos e como dizia Sophia de Melo Breyner se ‘vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar’”, atirou.
“Jesus, o Menino que por estes dias celebramos, foi também ele um migrante, um refugiado como descreve o Evangelho de Mateus a Fuga para o Egipto”, lembrou, apontando que “esta não é uma questão de hoje, nem de ontem, mas de todos os tempos”.
Aliás, acrescentou: “D. José Tolentino Mendonça conhece bem esta realidade porque também a viveu e sentiu, quando a sua família foi obrigada a regressar à Madeira, após a descolonização de Angola. Por estes dias, voltámos a viver esse drama, quando os nossos compatriotas, forçados a sair da conturbada Venezuela, aqui procuram um porto de abrigo. É nosso dever, acolher, promover, integrar estes nossos concidadãos que um dia partiram porque a terra mãe não lhes dava o pão nosso de cada dia. Estes regressam, mas há outros Cristos inocentes que pereceram e continuam a morrer em Caracas e em Valência, na Síria e no Iraque, no mar Egeu e no Mediterrâneo, sem que alguém lhes tivesse estendido uma mão protectora”.
Um lamento, mas mais esperança. “Por estes que partiram, cuidemos dos que ficaram e sofrem, pois esse é o nosso Inalienável e Indiscutível Dever. A pobreza e a exclusão social continuam a marcar os nossos tempos, pese embora toda a evolução positiva que se registou no Mundo e em Portugal, com particular incidência na Madeira. Há Meninos que continuam a nascer em grutas, pais sem trabalho, idosos abandonados nos hospitais e jovens à procura de futuro”. E aponta mais problemas e soluções: “Obviamente que a economia tem que mudar, que a sociedade tem que recuperar valores, que a comunidade deve continuar solidária, mas só atingiremos o patamar da igualdade de oportunidades e da afirmação e emancipação de todos pela via da Cultura e da Educação. A principal desigualdade social é a desigualdade do conhecimento e é essa que leva às outras diferenças e injustiças que conduzem muitos à pobreza e à exclusão. O milagre não é impossível, ele está ao alcance das nossas decisões.”
O papel da Igreja na Madeira
José Manuel Rodrigues não deixa de abordar o papel da Igreja na Madeira, começando por destacar quem não aceita a mistura de poderes. “Alguns, muitos poucos, poderão ver nesta cerimónia e noutras semelhantes, alguma interpenetração entre os chamados poder temporal e poder intemporal”, mas, garante, “nada mais errado, pois se o Estado é laico a sociedade não o é, antes pelo contrário, a nossa comunidade sabe que a Igreja é a fiel depositária dos valores que forjaram a nossa identidade e é um dos alicerces da idiossincrasia do nosso povo”, argumenta.
Por isso, afiança e questiona: “Quantas vezes esquecemos a ação da Igreja na nossa terra, ao longo de séculos, no apoio aos mais pobres e vulneráveis e como esse trabalho continua nos dias de hoje, com discrição e longe das luzes da ribalta. Devemos interrogar-nos sobre o que seria da Saúde, dos negligenciados e abandonados da nossa sociedade, sem as Casas de São João de Deus e Câmara Pestana, sem o Centro de Reabilitação da Sagrada Família, sem O Hospício, sem as Misericórdias, sem os Abrigos e as Aldeias do Padre Américo e da Paz e sem as Fundações e Instituições de Solidariedade Social de matriz católica? Temos que perguntar como seria a Educação na Madeira sem o Colégio de São João de Deus, sem o Lactário, sem a creche de Santa Clara, sem os Colégios de Santa Terezinha e da Apresentação de Maria, sem os Salesianos, sem o Colégio do Infante e sem a APEL?”
E continua: “Também temos que nos questionar o que seria a Cultura na Região, sem o imenso património da Igreja que vai desde a Sé Catedral, à Igreja de São João Evangelista, ao Convento de Santa Clara aos tesouros de muitas Igrejas, às atividades dos Centros Paroquiais até ao fabuloso Museu de Arte Sacra e ao rico património imaterial em volta da Festa de Natal que ora celebramos com tanto devoção e entusiasmo?
Este será O Pequeno Caminho de Grandes Perguntas, mas respondo a essas interrogações, citando uma sua expressão: ‘Deus permanece uma questão tanto para crentes como para não-crentes. Não deixa de haver uma nostalgia, uma abertura, uma disponibilidade em todo o coração humano...’ ‘Teremos de auscultar, debaixo da crosta dos ruídos ensurdecedores, os passos de Deus. A sua impressão digital está tatuada em nós”.”
Relação pessoal e palavras marcantes
José Manuel Rodrigues conclui lembrando uma acção há quase uma década. “Conheci o Sr. Cardeal, num dos momentos mais tristes da nossa comunidade neste século, nos dias seguintes ao 20 de Fevereiro de 2010, na capela do Rato em Lisboa. Recordo-me, como se fosse hoje daquela Missa, ainda no meio da aluvião, e de como a sua palavra de conforto e de apelo à continuidade da vida ajudou todos os madeirenses que estavam na capital a ultrapassar o trauma da tragédia e de como nos deu força para pôr em marcha uma grande campanha de recolha de donativos a favor da nossa ilha, envolvendo personalidades de referência do jornalismo, da televisão, das artes e da Cultura portuguesas. Contra as correntes de lama que desciam da montanha para o Funchal, construímos correntes de solidariedade que ajudaram a erguer a Cidade e a Ilha, num gesto que teve a sua bênção especial. Hoje, perante outras tragédias como a dos refugiados e dos migrantes que fogem da pobreza e da guerra, da perseguição e da morte, voltamos a precisar da sua palavra, do seu pensamento, da sua forma tão simples, mas ao mesmo tempo tão eficaz, de agitar as consciências para que se passe à ação concreta, em prol de uma Cultura do Encontro que abra o Coração ao Próximo”, contou.
“‘No princípio era a Ilha...’ dizia no seu primeiro poema e agora Vossa Eminência é um homem da Igreja global, o que constitui uma honra e um orgulho para todos nós”, finalizou. “Nunca ninguém conjugou tão bem a Insularidade com a Universalidade, a raiz com a floresta e a simplicidade com a profundidade da Mensagem dos Evangelhos. Por isso o poeta, agora Cardeal, escreveu um dia, com toda a propriedade, que ‘a ilha é um lugar onde se conserva um olhar sobre o Mundo’. Destas Ilhas, as mais Belas e Livres que se conhecem nesse Mundo, leve Sua Eminência para a Santa Sé e para o Papa Francisco, a certeza de que seremos sempre fiéis aos Princípios e Valores que marcam a nossa História e que começou há 600 anos com o fincar da Cruz de Cristo na terra bela e formosa da baía de Machico que o viu nascer. D. José Tolentino agradeço em meu nome e de todos os Deputados desta Assembleia, que representam o povo das nossas ilhas, ter aceitado este nosso modesto reconhecimento. Este tributo acontece numa época especial, no começo de tudo, no Natal, na Festa, pois no dizer do poeta que hoje homenageamos ‘esta boa notícia gera uma reviravolta que não toca apenas a forma ou o ornamento, mas altera radicalmente o fundo. Mostra-nos que somos as testemunhas não de uma agonia, mas de um parto. E de um parto que não é só o daquele Menino, mas é o nosso próprio nascimento, o nascimento do Mundo’”, encerrou desejando um Santo e Feliz Natal.