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Roleta russa

O tempo aquece e o mato cresce. 2018 tem sido pacífico na ilha, mas 2019 já não promete ser assim

O verão deixou de ser apenas férias, praia, lazer... É agora também medo, apreensão e uma espécie de roleta russa em que a qualquer momento a mira do revolver pode apontar para a nossa cabeça e, num abrir e fechar de olhos, reduzir-nos a vida a cinzas. Literalmente.

Na verdade, o estigma dos incêndios instala-se sempre que o mercúrio dos termómetros sobe, mantendo em constante alerta os espíritos mais conscientes, sobretudo aqueles que direta ou indiretamente, já experienciaram a sensação devastadora de ouvir cada vez mais perto o crepitar ameaçador do fogo. Eu sou um deles, um desses espíritos atormentados que não conseguiu ainda sossegar depois de ter lutado contra as chamas que há seis anos deflagraram em Gaula e há dois no Monte. Não sou, desde então, a mesma. Acho, aliás, que nunca mais o voltarei a ser porque, apesar de a sorte me ter bafejado dessas duas vezes, ambas as experiências foram tão traumáticas que, claramente, consigo definir um antes e um depois delas na linha da minha existência.

Não admira, assim, que este agosto prestes a findar me tenha reacendido a angústia recorrente do período estival. Os incêndios de Monchique e do Vale Paraíso, na Camacha, contribuíram para isso, demonstrando-me que, independentemente de proporções e consequências, tudo continua mais ou menos na mesma em termos de prevenção e, sobretudo, de reação a este tipo de flagelo. Afinal, verdade seja dita, o que continua a interessar é ficar bem na fotografia e, para isso, vale tudo. Sobretudo, a demagogia.

Com efeito, nesta matéria, não há como confiar em quem governa. Nem a nível nacional nem regional nem local. Sempre que a chama se ateia, o poder reage, sabemo-lo bem, culpando proprietários e até a lei que o próprio criou, cuja morosidade, disse-o publicamente um autarca há 15 dias, impede a intervenção atempada na limpeza de terrenos particulares.

Não há dúvidas, julgo eu, que todos são culpados e ninguém pode nem deve ser desresponsabilizado. Mas, cá entre nós, quem é que ainda não percebeu que muitos dos terrenos entregues ao mato pertencem a idosos descapitalizados que apenas têm dinheiro para sobreviver? Quem é que ainda não percebeu que, na melhor das hipóteses, a limpeza de um terreno nunca é inferior a 150€ enquanto que a reforma de muitos desses proprietários, também na melhor das hipóteses, mal ultrapassa os 200€? Quem é que ainda não percebeu que, se calhar, o aumento de mortes de anciãos em queimadas descontroladas se deve a tentativas desesperadas de limpar terrenos para não pagar as coimas resultantes do incumprimento da lei? Quem é que ainda não percebeu que muitos portugueses ou têm dinheiro para pagar impostos ou têm dinheiro para evitar incêndios? Eu já percebi, porque já paguei a limpeza não só das bordas de terrenos alheios como também de veredas públicas contíguas à minha casa. Fi-lo porque ninguém o fez. Sei, por isso, quanto custa; sei, por isso, do que falo.

Mas se percebo o drama de quem não consegue fazer frente aos encargos de um terreno inculto, o mesmo já não acontece relativamente à postura governamental no que a incêndios diz respeito. Não entendo, por exemplo, por que razão se destinam milhões de euros à indústria do combate a fogos, em franca ascensão no país e na Madeira, em vez de se ajudar efetivamente quem não tem dinheiro para os prevenir. Custa-me também entender investimentos de milhão e meio pela permanência de um helicóptero na Madeira ao longo de três meses – ao que acresce mais de um milhar de euros por cada hora de voo – para combater chamas que, caso deflagrem em vários pontos da ilha ao mesmo tempo e/ou em dias de vento fora de limites, ficarão certamente por apagar. Não entendo simplesmente. Talvez porque seja uma leiga, talvez porque abomine a hipocrisia e a caça ao voto.

Entretanto, o tempo aquece e o mato cresce. 2018 tem sido pacífico na ilha, mas 2019 já não promete ser assim. É que o ciclo de carga de material combustível nos terrenos abandonados completa-se de três em três anos, o que faz prever que, depois da tragédia de 2016, tudo esteja a postos para novo flagelo. O eucaliptal, o canavial, o acacial e o matagal em crescimento nas zonas ardidas demonstram-no. Há dois anos a culpa morreu solteira. Agora já não.