Português realiza sonho como mordomo no hotel de luxo em Paris

Paris /
04 Fev 2018 / 09:25 H.

No seio de uma equipa de 12 mordomos, num dos hotéis mais antigos e luxuosos do mundo, há um jovem franco-português a realizar “um sonho”: trabalhar no Hôtel de Crillon, em Paris.

Lucien Gomes, o mordomo português do ?Hôtel de Crillon, A Rosewood Hotel’, tem apenas 23 anos, nasceu em Villeneuve-Saint-Georges, nos arredores de Paris, e começou a trabalhar aos 18 anos, num hotel de luxo, Le Bristol Paris.

“O Hôtel de Crillon era mesmo onde queria trabalhar. Esteve fechado quatro anos e sempre pensei assim: o meu sonho era trabalhar no Hôtel de Crillon. Quando entrei no hotel e fiz a entrevista com o meu diretor e o chefe dos mordomos, senti uma coisa, já sabia que era aqui que queria trabalhar”, contou em português, uma língua que aprendeu em casa e nas férias em Portugal.

Lucien conta que o Crillon é o único palácio em Paris que tem mordomos para todos os 124 quartos e ‘suites’ e que falar português “é uma vantagem” porque há “poucos mas alguns” clientes portugueses e muitos brasileiros “que gostam de falar português”.

Sob os lustres dourados e o teto com um fresco secular do Salon des Ambassadeurs, com vista para a Praça da Concórdia, Lucien Gomes começa por explicar que há uma imagem errada do mordomo, a começar pelas luvas brancas.

Não, o jovem não anda de luvas e o uniforme foi criado por um ‘designer’ de moda francês, Hugo Matha, que escolheu vestir os mordomos com um smoking de seda azul marinho, com textura ‘jacquard’, sapatos ‘mocassin’ de veludo com o emblema bordado do conde de Crillon e um ‘foulard’ colorido em torno do pescoço.

“O trabalho mudou muito. Aqui também é diferente. No hotel, é acompanhar os clientes até ao quarto, mostrar o hotel e começar a falar com eles desde que passam a entrada”, explica o jovem, resumindo que o mordomo deve estar atento aos detalhes, compreender os gostos do cliente e “facilitar a estada dele”.

“Facilitar” a vida de quem vive no “mundo do luxo” - um universo em que “todas as coisas são permitidas” e os desejos realizáveis - passa por conhecer muito bem Paris e trabalhar em coordenação com o serviço de “conciergerie” para reservar, por exemplo, uma mesa num restaurante altamente solicitado ou reservar um carro.

O mordomo já teve de organizar um pedido de casamento surpresa, num dos salões históricos do hotel que encheu de rosas, e também organizou jantares românticos no Palácio de Versalhes. Um dia, teve de ir entregar pessoalmente uma mala esquecida por um cliente à ilha da Sardenha.

Lucien Gomes entrou no Hôtel de Crillon em agosto de 2017, após a reabertura do hotel que esteva fechado durante quatro anos para obras de restauro que contaram com a colaboração de vários artistas, incluindo o designer’ de moda, Karl Lagarfeld, que decorou duas ‘suites’.

O comunicado de imprensa da reabertura - que destaca que “o maior restauro da história” do hotel quis “aliar o fausto da arquitetura do século XVIII aos códigos do século XXI” - recorda que a rainha Maria Antonieta teve lições de piano neste palacete neoclássico e que por aqui passaram celebridades das artes como Igor Stravinsky, Charlie Chaplin e Andy Warhol.

Lucien Gomes convive com famosos e não famosos, mas o dever de confidencialidade obriga-o a não divulgar os nomes das ‘estrelas’ com quem prezou de perto, tanto no Crillon como nos outros hotéis onde já trabalhou.

“Não é preciso ser famoso para conhecer este mundo do luxo”, precisou, admitindo que ainda há gorjetas, “mas menos que antes, é verdade, as pessoas cuidam mais do dinheiro delas”.

Entre os clientes que mais gostou de acolher estão os seus pais portugueses, que nunca tinham estado num hotel de luxo e a quem ofereceu - junto com as irmãs - uma noite no hotel pelo 32.º aniversário de casamento.

“Gostaram muito da experiência. Cuidei deles aqui, assim podem compreender como me sinto no hotel e ficaram contentes por mim quando viram o hotel que é histórico, que é um palácio e compreenderam o luxo que está aqui”, contou.

Lucien começou a trabalhar como mandarete (’bellboy’) e motorista, aos 18 anos, no hotel de luxo Le Bristol Paris, foi mordomo no Hôtel de Pourtalès, em Paris, ‘barman’ no hotel 5 estrelas Eden Rock, na ilha de Saint-Barthélemy, mordomo no Hôtel Splendide Royal Paris, também com 5 estrelas, co-fundou uma empresa de venda de bebidas e criou uma bebida de hibisco.

Com o sonho concretizado aos 23 anos, o jovem avisa que há “sempre sonhos a seguir” e que depois de alguns anos no Crillon, gostaria de “abrir um hotel noutras paragens”, sempre no setor do luxo, “viajar e ver outras coisas no mundo”. Até lá, quer continuar a aprender, “evoluir neste trabalho e ficar chefe mordomo”.