Governo chinês adia demolição de mesquita depois de dias de manifestações

Centenas de pessoas percorreram centenas de quilómetros para apoiar os defensores da mesquita

China /
12 Ago 2018 / 00:12 H.

As autoridades chinesas decidiram adiar a demolição de uma mesquita em Weizhou, no norte da China, depois de vários dias de manifestações, declararam à agência France Presse (AFP) habitantes da região.

Um responsável local leu este sábado perante os manifestantes um documento a anunciar que o Governo vai adiar a demolição da mesquita, segundo alguns presentes ouvidos pela AFP, tendo depois a maioria das pessoas dispersado do local.

Milhares de pessoas estavam em protesto desde quinta-feira para impedir a demolição do local de culto, ordenada pelas autoridades que procuram restringir a liberdade religiosa para os muçulmanos, enquadrando-a nos princípios defendidos pelo Partido Comunista chinês.

Centenas de pessoas percorreram centenas de quilómetros para apoiar os defensores da mesquita e levar-lhes alimentos, segundo testemunharam os habitantes.

“O Governo garante que se trata de um edifício ilegal, mas não é o caso. A mesquita tem séculos de história”, disse à AFP um restaurador que se apresentou com o pseudónimo de Ma.

De acordo com documentos oficiais, a mesquita foi reconstruída nos últimos dois anos, mas vários responsáveis receberam “um sério aviso” da parte de uma comissão disciplinar local devido a incertezas no processo de autorização.

A fachada foi modificada, abandonando uma aparência de templo budista por um design árabe, com cúpulas e crescentes lunares.

As palavras “Mesquita de Weizhou” desapareceram do Weibo, a versão chinesa do Twitter, quando a AFP tentou fazer uma pesquisa sobre o tema.

A Internet e o serviço 4G dos telemóveis não funcionavam num raio de cerca de 10 quilómetros em torno do local da manifestação.

A agitação aumentou em Weizhou depois da difusão na passada semana de uma ordem governamental para demolir a mesquita, cuja reconstrução foi feita sem as autorizações devidas.

Num documento oficial, que a AFP diz não ter conseguido verificar, terá sido escrito que se o edifício não fosse demolido até 10 de agosto, o Governo ver-se-ia na obrigação “de o abater”, alertando os responsáveis da mesquita que “deveriam aceitar a responsabilidade das consequências de tal ato”.

As autoridades locais e a associação islâmica local não estiveram contactáveis, adiantou a AFP.

O islão é uma das cinco religiões reconhecidas oficialmente na China, onde vivem cerca de 23 milhões de muçulmanos.

A pressão das autoridades de Pequim aumentou nos últimos meses com um controlo apertado das manifestações da liberdade de expressão religiosa, com as autoridades a quererem enquadrar a prática religiosa com os valores e cultura chineses “tradicionais”.

Os novos regulamentos relativos a questões religiosas, que suscitaram uma crescente inquietação dos movimentos de defesa dos direitos humanos, preveem um controlo maior do Estado sobre a religião de forma a “parar o extremismo”.

Em Xinjiang, região autónoma no noroeste do país maioritariamente muçulmana, a situação é particularmente sensível: muitos uigures, povo de origem turca e de religião islâmica, queixam-se de discriminação e membros radicais cometeram atentados que fizeram centenas de mortos nos últimos anos.

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