Como está a Madeira no que toca à violência no namoro?

Conheça os resultados distritais do estudo nacional ‘Violência no Namoro 2018’, relativos à Região

14 Fev 2018 / 12:18 H.

Pela primeira vez, a Madeira participou neste estudo com 4 escolas da Região, de vários concelhos: Funchal, Câmara de Lobos, Ribeira Brava e Machico. No ano passado, apenas uma escola da Região do concelho de Câmara de Lobos aceitou participar neste estudo.

É preocupante que 21% dos jovens, que já tiveram ou estão numa relação de intimidade, já sofreram violência psicológica numa relação de namoro, havendo uma grande discrepância entre raparigas (30%) e rapazes (12%).

De realçar que 20% dos jovens já foram perseguidos/as numa relação de intimidade e que, em todos os tipos de violência (violência psicológica, controlo, perseguição, violência física, violência sexual, violência através redes sociais) com excepção da violência sexual, as raparigas sofreram mais violência do que os rapazes.

Relativamente à legitimação da violência, em toda a amostra, que inclui os/as jovens que já tiveram ou não relações de intimidade, os números são muito mais preocupantes. Indicam que “é urgente uma mudança de mentalidades no que diz respeito à violência de género, um trabalho profundo na prevenção primária da violência de género”, sublinha o relatório da UMAR Madeira.

Note-se que 85% dos jovens inquiridos consideram, em relacionamentos de intimidade, normal a violência física, 79% consideram normal a violência psicológica, 69% consideram normal a violência sexual, 68% a violência através das redes sociais, 62% a perseguição e 60% o controlo.

É preocupante verificar que, apesar das raparigas e mulheres serem mais vítimas de violência de género, são as raparigas que neste estudo mais legitimam todos os tipos de violência, ultrapassando, em percentagens, os rapazes em todas as categorias.

Conclusões Estudo Nacional Violência no Namoro 2018

Dos dados analisados do Estudo Nacional da Violência no Namoro, onde se incluem também os da Madeira, salienta-se, como primeira conclusão, que dos jovens que já estiveram numa relação de intimidade, 56% sofreram actos de vitimação que configuram a violência no namoro.

Em segundo lugar, importa realçar que, em todas as situações analisadas, há uma percentagem importante de jovens que legitima aquele comportamento como normal numa relação de namoro. Neste estudo, 68,5% do total de jovens aceita como natural pelo menos uma das formas de violência na intimidade. Esta normalização das situações descritas reproduz legitimação social da violência nas relações de intimidade. Salienta-se que esta legitimação é ainda mais frequente nos jovens que identificaram ter sofrido actos de vitimação (76,9%).

A partir destes resultados, compreende-se que a violência no namoro está presente quer pela experiência vivida nos relacionamentos íntimos — com a vitimação entre 6% (violência física) e 18% (violência psicológica) - quer pela legitimação e naturalização destes comportamentos, em que os dados se situam entre 8% (que legitimam comportamentos de violência física) e 29% (que legitimam comportamentos de controlo). Note-se que, na amostra da Região, até a violência física que deixa feridas ou marcas é legitimada por alguns jovens (87%), havendo apenas a diferença de 1% entre raparigas e rapazes (maior incidência nas raparigas).

Pode, também, concluir-se que a naturalização da violência é maior nos rapazes em todas as formas de violência estudadas. Em relação à violência sexual, a diferença entre rapazes e raparigas é significativa, uma vez que a legitimação destes comportamentos, pelos rapazes, é de 34% e, pelas raparigas, de 16%.

Os comportamentos de controlo apresentam-se como os mais legitimados, por jovens de ambos os sexos (29%), sendo a proibição de vestir determinadas peças de roupa o comportamento mais legitimado (40% dos jovens).

A violência nas redes sociais, enquanto dimensão (relativamente) nova nas relações de intimidade, mostra resultados alarmantes, tanto na legitimação 24% - quase um quarto de jovens – considera normal esta forma de agir no namoro; como na vitimação (12%).

A perseguição compreende um conjunto de comportamentos que é legitimado tanto por rapazes (35%), como por raparigas (19%). Esta legitimação pode advir do facto de, na nossa cultura, estes comportamentos não serem considerados violência (apesar de já criminalizados) e serem muitas vezes romantizados, sendo, portanto, um assunto que deve ser reflectido pelas pessoas que têm a responsabilidade da educação dos jovens.

Através da comparação com os dados nacionais do ano passado, podemos observar que tanto a legitimação como a vitimação da violência tiveram uma ligeira subida.

Perante estes resultados, permanece a necessidade e urgência de uma intervenção com os jovens, o mais precoce e continuadamente possível, no sentido de prevenir a violência sob todas as formas.

O mesmo estudo sublinha, que é pertinente referir que não podem desvalorizar-se quaisquer formas de violência, já que estas têm repercussões a vários níveis para os jovens e que desconstruir a normalização/legitimação destes comportamentos será minimizar a probabilidade de jovens se manterem em relações violentas e promover relações pautadas pelo respeito e igualdade.

Estes resultados revelam-se importantes para educadores, docentes, pais, mães, encarregados de educação e para a sociedade em geral, particularmente porque nos indicam o panorama real da situação portuguesa no que à violência no namoro diz respeito; mostrando a enorme necessidade de prevenção primária a este nível, em todo o território português.