Conhecer a Madeira não deveria ser apenas chegar, fotografar e partir
Será que a melhor forma de conhecer a Madeira é entregar ao turista um carro, um mapa digital e deixá-lo partir à descoberta? Ou poderíamos proporcionar uma experiência diferenciadora, mais acompanhada, mais informada, mais humana e, talvez, muito mais genuína?
A Madeira tem profissionais preparados para isso. Formámos guias e intérpretes, guias de montanha, transferistas e motoristas de turismo durante anos. Pessoas que conhecem a ilha profundamente e apaixonadamente, que dominam línguas, que conhecem a nossa história, as nossas tradições, os nossos caminhos e levadas, as nossas paisagens.
Profissionais que, em muitos casos, dedicaram décadas a esta atividade e que sabem explicar uma outra Madeira e que carregam consigo histórias, conhecimento e um amor profundo que não cabe num vídeo de trinta segundos nas redes sociais.
Entretanto fomos nos apercebendo que as redes sociais vão criando uma outra versão da nossa terra. Lugares transformados em cenários de consumo rápido, histórias inventadas ou simplificadas, tradições descontextualizadas e informações muitas vezes longe da realidade. O visitante chega, fotografa, publica e parte, não desfrutou, não sentiu.
O madeirense por outro lado, começa a sentir esse incómodo. Não é apenas no trânsito ou no estacionamento, mas também na relação com quem nos visita. Quando quem reside sente que o seu território está permanentemente exposto, ocupado e transformado num cenário turístico, é natural que surjam cansaço, saturação e até alguma hostilidade. A Madeira sempre foi um destino de bem receber e de gentes acolhedoras.
E isso deveria preocupar-nos. Porque queremos uma Madeira onde o turista seja bem vindo, não apenas tolerado.
Queremos um visitante que conheça, compreenda e respeite aquilo que encontra. Que saiba onde está, que conheça a história dos lugares, que perceba as nossas tradições e que leve consigo uma experiência que vá muito além da fotografia.
Podemos eventualmente até criar novas oportunidades profissionais.
Em vez de multiplicarmos ou triplicar apenas o aluguer de automóveis, podemos valorizar quem conhece a Madeira e vive do conhecimento que tem dela. Mais circuitos acompanhados, mais transporte turístico coletivo, mais guias, mais motoristas, mais experiências culturais e de natureza, mais profissionais capazes de transformar uma visita numa verdadeira descoberta.
Não se trata de retirar liberdade ao turista, trata se de saber receber.
Trata-se de lhe oferecer uma liberdade melhor acompanhada e uma experiência mais rica e genuína, ao mesmo tempo que reduzimos a pressão sobre uma ilha que conta com recursos e espaço limitados.
Tal como não podemos pedir ao madeirense para deixar o carro em casa enquanto continuamos a promover um modelo turístico que coloca milhares de automóveis adicionais nas nossas estradas.
Se queremos verdadeiramente discutir mobilidade, temos de discutir também o modelo de turismo e a forma como o visitante se desloca dentro da ilha.
O transporte público pode ser solução. O transporte turístico coletivo também. Os serviços de transfer, os circuitos organizados e os profissionais que conhecem o destino podem ser parte da solução.
Mas é preciso pensar a Madeira como um território com limites, e não como um destino infinito onde cabe sempre mais um carro.