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Que Madeira estamos a construir?

Enquanto os hotéis e as ruas enchem-se de turistas, a Madeira expulsa toda uma geração da Região. Esta é a imagem que a Madeira não pode continuar a ignorar, de uma Região que celebra recordes turísticos, mas que perde, ano após ano, aquilo que nenhuma economia consegue substituir, a sua gente mais jovem. Vivemos um crescimento aparente que esconde um esvaziamento real e é minha convicção que não podemos, por mais um dia, adiar este debate.

Os números, esses, não se discutem. Entre 1990 e 2020, a população dos 0 aos 14 anos caiu de 62.657 para 33.150, uma quebra de quase metade numa só geração. Entre 2014 e 2024, o índice de envelhecimento praticamente duplicou, passando de 105 para 179 idosos por cada 100 jovens. As projecções do Instituto Nacional de Estatística são inequívocas, mas ninguém as discute. Até ao final do século, a Região poderá perder 62% da sua população jovem. Não estamos perante uma fatalidade demográfica. Estamos perante o resultado de opções políticas tomadas ou da ausência delas.

Reconheço, com honestidade, que o turismo, a construção e a própria administração pública têm dado a muitos madeirenses aquilo a que chamamos “boas oportunidades”. A oportunidade de um emprego imediato, um rendimento seguro, uma vida que parece resolvida. Mas pergunto, com a mesma honestidade, até quando durará este ciclo? São setores estruturalmente cíclicos, sujeitos a conjunturas que não controlamos. Não se pode construir o futuro de um povo sobre uma base que pode ruir com uma crise lá fora.

Esta é a nossa base e, é de facto, frágil. O turismo representa entre 25% e 30% do produto interno bruto regional e emprega quase um quinto da população ativa. Mas o dado mais preocupante é outro, 85,8% das dormidas registadas na Madeira, em 2024, tiveram origem em não residentes em Portugal, a maior dependência de mercados externos entre todas as regiões do país. Uma crise energética como a que vivemos, um conflito internacional como o que se avizinha e uma recessão nos mercados emissores como o que assistimos são a tempestade “perfeita” para repetir, pelo menos com a mesma violência, o que vivemos em 2020. Aparentemente, não tiramos ilações dela.

A esta vulnerabilidade soma-se outra, menos discutida em praça pública, o Centro Internacional de Negócios da Madeira. É um instrumento que, nalguns anos, sustentou crescimentos do produto interno bruto acima da média nacional. É, por natureza, um pilar volátil e convém não esquecer que o produto interno bruto por habitante da Madeira permanece claramente abaixo da média da União Europeia.

Mas o principal obstáculo à mudança, devo dizê-lo sem rodeios, não está fora de portas. Está na própria cultura política ou da falta dela. Há quem se perpetue em lugares de decisão apenas por pertencer à cor partidária que governa a Madeira desde a revolução, ocupando cargos que deveriam rodar por mérito, e não por fidelidade. E, do outro lado, a oposição não está isenta de responsabilidade: gera os seus próprios dependentes da política, quadros para quem um lugar partidário compensa muito mais do que alguma vez compensaria uma carreira profissional, quando e se a tiveram. Uns perpetuam-se, outros acomodam-se.

O ciclo vai mudar, e é tempo de agir com prudência e antecipação. O cenário que se avizinha pode ser imprevisível, e o impacto, significativo desde quebras de rendimento, insolvências, famílias em dificuldades. Alguém está preocupado com isto? Quem está, hoje, verdadeiramente a preparar a Região para esse cenário? Um político que se assume como tal não pode ter como único objetivo agradar a população. Quem se assume, faz o que tem de ser feito ainda que isso tenha um custo eleitoral.