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Apoio psicológico (não) é para mim (?)

As hesitações mais comuns sobre pedir ajuda psicológica - e o que vale a pena saber sobre cada uma.

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A partir da sua experiência enquanto psicólogas e das dúvidas e receios que continuam a existir em torno da procura de apoio psicológico, Ana Fidalgo e Liliana Marques, fundadoras e directoras da clínica de psicologia O Teu Lugar, reúnem neste artigo algumas das hesitações mais comuns que podem surgir antes de se decidir procurar ajuda.

Do medo de ser julgado à ideia de que devemos conseguir resolver tudo sozinhos, passando pelas dúvidas sobre a eficácia da psicologia ou sobre aquilo que acontece, afinal, numa sessão, o objectivo é olhar para estas questões sem as desvalorizar e ajudar a perceber o que está por detrás delas. Porque, muitas vezes, compreender melhor estas hesitações pode ser um primeiro passo para tomar uma decisão mais informada e consciente sobre cuidar da própria saúde mental.

Não importa a idade, a profissão, ou o quão resolvida a vida pareça estar por fora: quase todos nós, antes de marcarmos a primeira consulta com um psicólogo, atravessamos uma espécie de antecâmara feita de vozes próprias que perguntam se merecemos, se vamos ser julgados, se aquilo sequer funciona.

Estas vozes raramente são disparatadas ou irracionais. São, muitas vezes, o eco de coisas que nos ensinaram sem ninguém ter tido essa intenção: que pedir ajuda é admitir derrota, que a nossa dor só ‘conta’ se for suficientemente grande para justificar o incómodo de outra pessoa, que existe um tipo de sofrimento nobre e silencioso que se resolve sozinho, por mérito próprio. Nenhuma destas ideias resiste bem a um olhar atento, mas isso não as torna menos persistentes.

Ao longo dos anos, ouvimos muitas versões destas hesitações. Tendem a agrupar-se à volta de um punhado de perguntas mais profundas. Vale a pena olhá-las de frente, para perceber de onde vêm e, sobretudo, para nos questionarmos se (ainda) fazem sentido.

O medo de ser visto

“Só precisa de ajuda quem é fraco”. É, talvez, a frase mais repetida. Raramente entendemos como fraqueza o gesto de ir ao médico quando alguma coisa dói; conseguimos, colectivamente, reconhecer isso como um cuidado razoável e necessário. Mas quando a dor é emocional, invertemos a lógica: de repente, cuidar de nós é fraqueza, e aguentar sozinho é sinónimo de força. Vale a pena perguntar porquê… na verdade, reconhecer uma dificuldade e agir perante ela costuma pedir mais coragem do que fingir que ela não existe.

“Vão julgar-me” é a hesitação seguinte, normalmente sussurrada por baixo da primeira. Aqui talvez ajude separar duas coisas: o que pode acontecer dentro da sala e o que pode acontecer fora dela. Dentro, no espaço da relação terapêutica, existe um lugar que, por definição, não tem espaço para julgamento … não porque o psicólogo seja imune a reações humanas, mas porque a ausência de julgamento é uma competência que se treina e um compromisso que se assume. Fora da sala, é verdade que não controlamos o que os outros pensam. Mas talvez a pergunta mais honesta não seja “o que vão pensar de mim?” e sim: o que há, afinal, de tão errado em alguém que decide cuidar de si?

E depois há um receio mais concreto: “vão falar sobre mim”. Este, felizmente, resolve-se com regras. O sigilo profissional é um dos pilares do código deontológico da profissão: o que é partilhado numa sessão fica, por regra, entre quem fala e quem escuta. As excepções são raras e claras, como situações de perigo sério para a integridade física ou psicológica da própria pessoa ou de terceiros, ou casos de abuso. Fora disso, a confidencialidade não é uma cortesia, é mesmo uma obrigação.

“Não preciso, ou mereço menos do que outros”

Há quem hesite, não por medo, mas por convicção: “se consegui até agora sem ajuda, para quê procurar agora?” Conseguir e melhorar podem ser coisas muito diferentes. Podemos atravessar uma vida inteira sem nunca perguntarmos se ela poderia ser mais leve, mais clara, mais nossa. Não é preciso estar a afundar para valer a pena aprender a nadar melhor.

Perto desta está “não quero mudar nada” que, ao contrário do que parece, não é incompatível com pedir ajuda. O acompanhamento psicológico não impõe mudança; oferece, antes de mais, um espaço para olhar com atenção para aquilo que já existe. Às vezes o resultado é mesmo alguma mudança. Outras vezes é apenas compreender melhor porque é que as coisas são como são e isso, por si só, já pode constituir um alívio, mesmo quando se escolhe, de forma consciente, não mudar nada em função disso.

Há ainda a versão mais geracional desta hesitação: na minha altura não havia tempo para problemas de saúde mental. Talvez não houvesse tempo, ou talvez, mais precisamente, não houvesse palavras. A ausência de conversa nunca foi ausência de sofrimento; foi apenas um sofrimento sem nome para lhe dar. O mundo mudou, isso é certo, as pressões de hoje não são exatamente as de há trinta ou quarenta anos, mas cuidar da mente nunca foi um luxo dos dias de hoje. Foi sempre uma condição para viver bem, com ou sem diagnóstico à mistura.

“Isto não vai funcionar”

“A psicologia não funciona” costuma ser, na verdade, uma frase incompleta. Falta o resto: não funcionou desta vez, com este método, com este profissional, ou nesta fase da vida. A psicologia não é uma técnica única; é um campo com muitas abordagens diferentes, e a relação entre quem acompanha e quem é acompanhado pesa tanto ou mais quanto a técnica em si. Uma tentativa anterior sem sucesso diz pouco sobre o que pode acontecer numa próxima - pode ter sido o método errado, a pessoa errada, ou simplesmente a altura errada. Vale a pena tentar de outra forma antes de concluir que “não funciona” e defini-lo como um ponto final.

Há também quem desconfie das intenções: “os psicólogos só querem é ganhar dinheiro”. Definitivamente, não é “só” … mas fará sentido vermos como problema que um psicólogo precise de ser remunerado pelo seu tempo e formação, como qualquer profissional? O que não podemos afirmar com certeza absoluta é o que vai na mente de cada pessoa que escolhe esta profissão. O que podemos dizer, com alguma confiança, é que a maioria de quem escolhe formar-se durante anos numa área tão complexa e que exige tanto do ponto de vista emocional e técnico, raramente o faz apenas pelo retorno financeiro… há profissões bem mais lucrativas, e bem menos exigentes.

E, cada vez mais, surge uma versão nova desta desconfiança: “hoje tenho uma aplicação de inteligência artificial, para que preciso de um psicólogo?” É uma pergunta séria, e merece uma resposta séria. Uma aplicação está disponível às três da manhã, não costuma custar quase nada e não julga, e isso tem valor real para quem recorre a ela, sobretudo como primeiro desabafo ou como apoio. O que uma inteligência artificial ainda não consegue oferecer é uma relação: alguém que se lembra de ti ao longo do tempo, que repara no que não disseste tanto quanto no que disseste, que pode, com cuidado, discordar de ti ou confrontar-te com afecto, que responde eticamente e, se for caso disso, legalmente, por aquilo que te diz. A tecnologia pode ser um bom complemento. Não é, nem finge ser, o mesmo tipo de encontro.

O que esperar lá dentro

Duas hesitações têm que ver, no fundo, com o receio do que vai ser pedido de nós dentro da sala. “Tenho receio de ter de falar de coisas difíceis” é uma delas - e a resposta mais honesta é que ninguém é arrastado para lado nenhum. O ritmo é seu. Um bom psicólogo respeita os seus limites e só avança para territórios mais difíceis quando ambos sentirem e concordarem que é o momento certo - e mesmo aí, consigo, nunca sobre si.

A outra é “não quero falar sobre os meus sentimentos” - que, tal como “não quero mudar nada”, assenta numa ideia que talvez não conheça tão bem o que abrange este trabalho. O acompanhamento psicológico não se resume a nomear emoções; inclui também construir estratégias concretas para lidar com desafios, melhorar a forma como comunicamos, e trabalhar objectivos bem práticos. Fala-se de sentimentos quando é útil fazê-lo, não porque seja regra obrigatória.

“Já tenho os meus apoios”

Esta é talvez a família de hesitações mais bem-intencionada de todas, porque não nasce do medo, mas da gratidão por aquilo que já ajuda. “Se quiser falar, falo com os meus amigos”. Ter amigos com quem contar é, sem qualquer dúvida, uma das coisas boas da vida e um recurso valioso para o processo terapêutico. Mas é um tipo de apoio diferente: os amigos oferecem afecto, lealdade e uma perspectiva de dentro da sua própria história; um psicólogo oferece formação especializada, treino técnico e - talvez o mais valioso - uma perspectiva de fora, sem história partilhada nem interesse pessoal no resultado. Não competem entre si, complementam-se.

O mesmo vale para “a minha terapia é o exercício físico, a música, ou outro hobby qualquer”. Correr, tocar um instrumento ou perdermo-nos num projecto são, de facto, boas formas de regular o corpo e a mente e vale a pena continuar a fazê-lo. Mas há uma diferença entre algo ser terapêutico e algo ser uma terapia. O primeiro alivia; o segundo trabalha, com intenção e método, as raízes daquilo que precisa de alívio. Juntos, tendem a formar um cuidado mais completo do que qualquer um sozinho.

Por fim, há quem hesite por uma razão bem mais simples: “não percebo como funciona”. É talvez a mais fácil de resolver de todas, pois apenas pede uma pergunta feita a quem sabe explicar.

Um último passo

Se há um fio a unir todas estas vozes, é este: quase todas nascem de uma ideia qualquer sobre o que "deveríamos" conseguir sozinhos, sobre o que é "suficientemente grave" para pedir ajuda, sobre o que os outros vão pensar de nós por o fazermos. Vale sempre a pena questionar essas ideias antes de as deixar decidir por nós. E, já agora: não prometemos milagres. Prometemos um espaço sério e honesto, e um compromisso genuíno em perceber, contigo, do que realmente precisa.

Se ainda não sabe bem como dar esse primeiro passo, não precisa de o dar sozinho/a: pode escrever-nos / ligar ou visitar https://oteulugar.pt/ , onde encontra as perguntas mais frequentes, para perceber, com calma, o que esperar antes de decidir seja o que for.

Sobre a clínica O Teu Lugar:

N’ O Teu Lugar, clínica de psicologia fundada por Ana Fidalgo e Liliana Marques, existe uma equipa multidisciplinar com acompanhamento nas áreas da Psicologia Clínica, Psicoterapia e Psiquiatria, bem como em diferentes áreas de especialização relacionadas com saúde mental e bem-estar. A clínica disponibiliza acompanhamento presencial, em Coimbra, e consultas de psicologia online, procurando adaptar o apoio às necessidades e ao momento de cada pessoa.

Consultas: Psicologia Clínica, Psicoterapia, Psiquiatra, Terapia de Casal, Terapia EMDR, Sexologia, Hipnose Clínica, Psicologia Perinatal, Aconselhamento Parental, Terapia Familiar, Consulta de PHDA em Adultos, Psicologia Infantil e Psicologia para Adolescentes.

Serviços Complementares: Avaliação Psicológica, Avaliação de Burnout.

Para informações, contacte: 

O Teu Lugar 
+351 910 513 839 | [email protected]