Pela Advocacia Madeirense

24 Nov 2019 / 02:00 H.

Enquanto miúdo quis experimentar um pouco de tudo sem grande direção ou objetivo. A

forma como praticava desporto era reveladora deste momento que atravessei: no início do

ano queria praticar ténis-de-mesa. Passado um mês, já estava na equipa de basquetebol.

Passado outro mês percebia que, afinal, o que queria era praticar futebol. Raras foram as vezes

que pratiquei uma modalidade durante tempo suficiente para que o treinador soubesse o meu

nome.

Esta indecisão fez com que experimentasse um número considerável de modalidades

desportivas, abrindo-me os olhos para o facto de que nunca iria ganhar a vida como atleta, o

que não fazia mal nenhum porque já sabia o que queria ser quando fosse “grande”: queria ser

advogado.

Não queria ser solicitador, notário, agente de execução ou juiz. Naquele tempo, para mim, ser advogado significava adquirir as ferramentas necessárias para acabar com situações de injustiça. Era conseguir ajudar o João, que quando foi buscar a sua mochila depois de ter estado a jogar à bola apercebeu-se que lhe tinham tirado o estojo. Ou a Maria, que se sentou num muro onde alguém tinha acabado de colocar uma enorme pastilha elástica mesmo no sítio onde ela se sentou, fazendo com que tivesse de gastar o dinheiro do almoço na

lavandaria.

Tornar-me advogado significava poder fazer alguma coisa, pelo menos nos casos que me

viessem bater às mãos.

Uns anos mais tarde licenciei-me em Direito e em 2016 regressei à Madeira para finalizar o

estágio profissional.

Não conhecia os advogados que aqui exerciam. Nem os mais novos, nem os mais experientes.

Em bom rigor, não conhecia a realidade da advocacia madeirense.

De 2016 até ao presente percebi que nem tudo são rosas. É preciso estar constantemente atualizado, estudando e trabalhando horas a fio. Lutar diariamente para conseguir equilibrar a vida pessoal com a profissional. Lidar com clientes que nem sempre nos ajudam, compreendem ou valorizam e viver na insegurança que é típica de uma profissão liberal. Não é fácil, especialmente para os que agora estão a começar.

Nos últimos tempos, com muita tristeza, apercebi-me que a grande maioria dos jovens

advogados que conheci desistiu da advocacia, procurando novos caminhos, noutras profissões.

Ou porque eram estagiários não remunerados, apesar do exigente horário de trabalho e

responsabilidade que assumiam. Ou porque o que recebiam não compensava as despesas fiscais, os custos de manutenção de um escritório, o pagamento das contribuições obrigatórias

para a caixa de previdência e ainda as quotas da ordem profissional que tinham de suportar.

Ou porque simplesmente estavam convencidos de que sem contactos não iam a lado nenhum

e que como não os tinham, mais valia procurar outra coisa porque a advocacia estava destinada a uma elite à qual não pertenciam.

Ultimamente tenho tido também a oportunidade de ouvir em primeira pessoa o testemunho

de colegas com mais anos de prática sobre o estado da nossa profissão, muitos revelando

grande preocupação com o rumo que a advocacia está a seguir.

Do que vi e ouvi, parece-me claro que sem jovens a advocacia não tem futuro. E igual destino

tem a Justiça sem advogados.

É preciso, hoje mais do que nunca, unir a advocacia madeirense. Abraçar as diversas formas de prática, desde as mais tradicionais às mais modernas. Identificar sem rodeios o que está

menos bem e o que é que podemos fazer para melhorar. Garantir e promover a dignidade da profissão. Falar abertamente sobre os motivos que levam os jovens advogados a procurar

outro caminho e os advogados mais experientes a olhar para o futuro da advocacia com

incerteza. É preciso debater todos estes temas de forma saudável, aberta e com o respeito e dignidade que a profissão exige.

Para mudar de rumo afigura-se essencial ter pleno conhecimento das especificidades inerentes

ao exercício da advocacia na Região. E mesmo com o maior dos conhecimentos, é uma batalha na qual não nos podemos dar ao luxo de dispensar seja quem for.

Só assim, unidos pela advocacia madeirense, podemos dar o primeiro passo para este novo

rumo no dia 27 de novembro.

Gonçalo Freitas de Sousa