Avisos sérios ao Turismo

Não queiram os coveiros do CINM desterrar também “o órgão vital” da madeira

17 Mar 2019 / 02:00 H.

Os madeirenses consideram que o Turismo continua a ser “o órgão vital” da Região. Um motor decisivo para a frágil e dependente economia insular, mas inevitavelmente ameaçado pela falta de profissionais qualificados, pelo risco de massificação, pelos desequilíbrios territoriais e pelas limitações do aeroporto.

Estas fragilidades estão vertidas no estudo contratualizado pelo Governo Regional à Aximage, o tal que nos custou 111 mil euros. E mais seriam se o retrato não tivesse ficado pelo propósito de conhecer apenas a realidade actual. Falta-lhe ambição, futuro, perguntas que têm sido colocadas com frequência, para as quais têm surgido respostas quase sempre redundantes e previsíveis. Falta-lhe compromisso colectivo, medidas que permitam escapar com vida à tempestade perfeita.

Nunca a Região, enquanto destino turístico, se viu confrontada com tantos desafios simultâneos. A inoperacionalidade crescente do aeroporto da Madeira; as falências de cinco companhias aéreas (Air Berlin, Monarch, Niki Germania e Small Planet) que operavam para a Região; as saídas da Vueling e da Volotea por razões operacionais e a diminuição de volume de turistas nas operações contratualizadas; o aumento substancial do número de camas; o ressurgimento de destinos concorrentes, como a Turquia; o ‘brexit; os preços das viagens de avião; os valores inconstantes destinados à promoção... mereciam mais do que discursos de circunstância ou promessas de nova marca e de planos de estratégia, de contingência e de requalificação.

Perante a deriva e a incerteza, não admira que haja hoje muito ‘player’ pragmático e ávido de alternativas, farto da falta de rumo, do discurso repetitivo, da crítica recorrente e dos choradinhos inconsequentes, até porque posicionado num mercado global e com visão transversal.

Investimos algumas horas na Bolsa de Turismo de Lisboa, que hoje é bem mais do que plataforma de contactos e de negócios, de venda de férias ou de caça ao brinde. Deu para perceber que há gente equivocada que tem responsabilidades no sector. A esforçada Associação de Promoção da Madeira, com equipa íntegra e capaz, focada e visionária, e talvez por isso alvo apetecível dos que produzem palavreado fútil, revela-se útil. Mas precisa de solidariedade institucional para que a sua acção seja preservada e eficaz, o que, no limite, depende apenas que alguns egos se inibam de atrapalhar.

Chegados à encruzilhada importa ter que decidir, sem subterfúgios, nem hesitações. E cabe a quem manda seguir um caminho em nome daquilo que julga ser o futuro sustentado e sustentável. Os avisos são muitos e como o melhor dos dois mundos não está à venda, a Região tem que escolher.

Quer um Turismo cooperante, que assina e honra contratos, ou que fere de morte o trabalho empenhado de uns quantos, com hostilizações grosseiras e exibicionismos mediáticos? No dossier de TAP é bem mais do que evidente a falta de tento na língua e de bom senso de muitos políticos regionais, como se a companhia não garantisse quase 40% da operação turística.

Quer um Turismo capaz de guardar confidencialidade – por vezes claramente impressa em documentos que são tornados públicos – ou dada à satisfação de egos sedentos de visibilidade? A Madeira, que em Julho do ano passado, solicitou à Comissão Europeia que o processo do CINM fosse tratado de forma confidencial para comprometer negociações usa do mesmo princípio quando solicita dados financeiros a empresas?

Quer um Turismo actuante, capaz de ler em cada instante os sinais ditados pelos mercados e de intervir com celeridade nos processos, com decisões adequadas de modo a gerar soluções ou prefere apenas viver dos problemas e dos eventuais dividendos políticos que os mesmos possam ditar?

Quer um Turismo que explora e mendiga taxas e taxinhas ou que é percursor do princípio utilizador-pagador ou até de um pacote único de encargos desde que envolva compensações fiscais a quem investe?

Quer um Turismo inovador, capaz de reestruturar produtos ou apenas um mero contribuinte activo no definhar de atributos que o tempo se encarregou de desfazer?

Quer um Turismo que pensa, que não tem incómodo em ser verde tanto na paisagem como na abordagem existencial ou um sector que plagia conceitos e que assim também afugenta compradores internacionais?

Quer um Turismo esclarecido, em que todos contribuem para a grande causa, mesmo que alguns não saibam distinguir um cocktail de um jantar, ou um sector baralhado e conflituoso em que cada um só quer saber do seu relativo sucesso?

Por estes dias de anunciada morte do CINM, não queiram os coveiros desse tamanho instrumento de desenvolvimento, desterrar também o Turismo.

Ricardo Miguel Oliveira