Experimentalismo galopante
O princípio da prudência deveria andar pelo menos tão depressa como a inovação
Há mudanças que visam simplificar a vida. E, nesse capítulo, Portugal tem sido referência mundial em vários domínios, do Multibanco à Via Verde e da Loja do Cidadão à Chave Móvel Digital. Dá gosto perceber que este País conseguiu abolir, com mestria, passos, balcões, papéis e deslocações, contribuindo para uma melhor qualidade de vida colectiva.
Só que, talvez embalado pela inovação e pelos casos notáveis em que a tecnologia retirou burocracia, tem vindo a meter-se em sarilhos sempre que a obsessão pela digitalização produz o efeito contrário, deixando de fazer presencialmente aquilo que passa a obrigar o cidadão a tratar sozinho, através de uma plataforma que nem sempre funciona ou foi suficientemente testada.
Ao lançar sistemas novos em áreas críticas sem garantir que estão maduros, o Estado decide experimentar com pessoas. E transformá-las em utilizadores-teste, ou, pior, em cobaias, é particularmente abusivo quando estão em causa a saúde, a educação, a justiça ou prestações sociais, onde o custo de um erro pode ser muito superior ao de uma falha numa aplicação banal.
Mais, quando o sistema falha, o ónus tende a cair sobre o cidadão, obrigado a telefonar, deslocar-se, reclamar, repetir procedimentos ou esperar. É assim lamentável fazer depender uma vida do experimentalismo digital galopante, quando aquilo que está em causa não é uma simples encomenda online, mas uma decisão com consequências vitais.
Há, portanto, mudanças decretadas nos gabinetes do poder que, sob a aparência da modernização, acrescentam ansiedade a quem já tem razões suficientes para estar com os nervos em franja. E a nova escolha digital das especialidades médicas, que é semelhante à plataforma utilizada pelos estudantes no acesso ao Ensino Superior, parece perigosamente próxima desta categoria.
Soube-se esta semana que, pela primeira vez, os jovens médicos vão deixar de fazer uma escolha presencial, acompanhados por pessoas que conhecem há anos o funcionamento do processo, para passar a fazê-la através de um sistema online que nunca foi utilizado nestas circunstâncias. A Ordem dos Médicos e outras organizações contestam precisamente a transparência do novo modelo. E quem está no meio da tormenta assume um brutal acréscimo de stress.
Usar um método novo para uma escolha demasiado séria gera dúvidas sobre se todos os factores foram realmente pensados. Digitalizar não é simplesmente pegar num procedimento existente e colocá-lo num ecrã. Quando estão em causa vagas limitadas e escolhas que podem determinar uma carreira inteira, cada detalhe conta: a informação disponível, o momento da decisão, a percepção da posição de cada candidato, a possibilidade de corrigir um erro, a resposta perante uma falha e, sobretudo, a confiança de que todos compreendem exactamente as regras.
O Estado pode dizer que o sistema foi testado para que o desastre recente na Educação não ocorra na Saúde. Pode garantir que a ordenação dos candidatos não muda. Pode assegurar que a tecnologia funciona. Mas nunca irá garantir que foi testada a experiência de quem, pela primeira vez, terá de tomar uma decisão destas sem a segurança do modelo que conhecia.
É neste domínio que a modernização pode transformar-se num erro de perspectiva. Quem desenha o sistema olha para a eficiência do processo. Quem está sentado do outro lado do ecrã não está de olhos postos na mudança administrativa pois está focado na escolha que pode determinar o seu futuro profissional.
Mudar porque é possível não chega. Quando a decisão é demasiado séria para admitir improvisos, primeiro garante-se que tudo foi pensado. Só depois é que se muda.