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Inteligência Artificial já chegou a 85% dos jovens e quase metade usa-a nos trabalhos da escola

Foto Rui Silva/ASPRESS
Foto Rui Silva/ASPRESS

Relatório sobre os hábitos digitais dos 9 aos 17 anos mostra uma rápida entrada da inteligência artificial na vida dos mais novos. Mais de metade já encontrou discurso de ódio na Internet e dois em cada três rejeitam ou não querem uma proibição dos telemóveis na escola.

A inteligência artificial generativa já faz parte da vida da esmagadora maioria das crianças e jovens portugueses. Oito em cada dez, mais precisamente 85%, entre os 9 e os 17 anos já utilizaram estas ferramentas e quase metade recorre a elas para fazer trabalhos escolares.

Os números constam do EU Kids Online 2025 e ajudam a traçar um retrato de uma geração cada vez mais ligada ao digital, mas também mais exposta aos riscos que circulam na Internet. Mais de metade dos jovens encontrou mensagens de ódio online no último ano, enquanto dois em cada três não concordam com a proibição de levar telemóveis para a escola ou esperam que essa restrição não venha a ser aplicada.

O estudo 'Novos usos, novos riscos? Direitos digitais de crianças e jovens (9-17 anos)' ouviu 2.111 crianças e jovens utilizadores da Internet.

É na utilização da inteligência artificial que surge uma das mudanças mais evidentes. Cerca de 47% dos inquiridos dizem já ter recorrido à IA generativa para trabalhos escolares, uma utilização que aumenta à medida que sobe a idade.

Entre as crianças dos 9 aos 11 anos, 28% usam estas ferramentas para fins escolares. A percentagem passa para 48% entre os 12 e os 14 anos e chega aos 63% no grupo dos 15 aos 17 anos.

A diferença também é visível consoante a condição socioeconómica. Cerca de metade dos jovens pertencentes aos níveis alto e moderado utiliza IA nos trabalhos escolares, contra 34% entre os que pertencem a agregados de nível socioeconómico mais baixo.

IA entrou “à margem dos professores e dos pais”

Cristina Ponte, investigadora do Instituto de Comunicação da NOVA e uma das responsáveis pelo relatório, chama a atenção para a velocidade com que estas ferramentas chegaram aos mais novos.

“Houve em Portugal uma rápida penetração, uma rápida divulgação” dos sistemas de inteligência artificial entre os jovens, “à margem dos professores, à margem dos pais”, assinala.

A investigadora não vê necessariamente a utilização escolar da IA como um problema. Pode ajudar a estudar, resumir ou explicar textos e apoiar pesquisas, desde que exista orientação pedagógica.

O risco surge quando a tecnologia passa a substituir o próprio processo de aprendizagem e os alunos delegam nos sistemas de IA a realização dos trabalhos.

A inteligência artificial é usada também para questões mais pessoais. Cerca de 23% dos jovens dizem ter recorrido a estas ferramentas para conversar ou obter conselhos sobre saúde física, e igual percentagem procurou respostas para preocupações pessoais.

Os investigadores identificam, porém, uma distância entre a confiança que crianças e jovens dizem ter nas suas competências digitais e aquilo que efectivamente conhecem sobre algoritmos, modelos de negócio das redes sociais e os impactos das tecnologias.

Cerca de metade gostaria, aliás, de aprender mais sobre notícias falsas e protecção dos dados pessoais.

Mais de metade já encontrou mensagens de ódio

A utilização crescente da Internet traz consigo uma exposição igualmente significativa aos seus conteúdos mais negativos.

Cerca de 52% das crianças e jovens dizem ter visto mensagens ou comentários de ódio online pelo menos uma vez durante o último ano.

E o contacto com estes conteúdos dispara com a idade.

Entre os 9 e os 11 anos, aproximadamente um quarto refere já ter encontrado mensagens deste género. Aos 16 e 17 anos, a percentagem chega aos 72%.

Os conteúdos podem ter como alvo pessoas ou grupos devido ao género, origem étnica, religião, nacionalidade, orientação sexual ou deficiência.

O relatório identifica igualmente contacto com outros conteúdos de risco, desde imagens violentas ou repugnantes a pornografia de adultos, desafios susceptíveis de provocar ferimentos, drogas ou mensagens relacionadas com autoagressão.

As teorias da conspiração chegaram a 37% dos jovens no último ano, subindo para 47% entre os 16 e os 17 anos.

Uma parte desta exposição nem sequer resulta de uma procura deliberada dos jovens, destacando os investigadores o peso dos sistemas de recomendação das próprias plataformas.

Cristina Ponte relaciona esse fenómeno com a crescente utilização de conteúdos destinados a provocar reacções emocionais, numa lógica alimentada pelos algoritmos e agora também pela inteligência artificial.

Telemóveis dividem alunos

É neste contexto de utilização intensiva do digital que surge um aparente paradoxo: a maioria dos alunos não quer que o telemóvel seja afastado da escola.

Cerca de quatro em cada dez afirmam que na sua escola não existe uma regra que proíba levar o telemóvel e esperam que ela não venha a ser criada.

Metade refere que a proibição já existe, mas mesmo aí as opiniões se dividem: 26% concordam com a regra e 25% discordam.

No conjunto, dois em cada três alunos ou discordam da proibição ou esperam que ela não venha a ser aplicada.

A resistência é particularmente forte entre os mais velhos. Entre os 15 e os 17 anos, oito em cada dez não concordam com a proibição de levar o telemóvel para a escola, enquanto 64% dizem que não existe essa regra no estabelecimento que frequentam e esperam que assim continue.

A realidade é bastante diferente entre os 9 e os 11 anos. Neste grupo, 76% indicam que existe uma proibição, acompanhando as regras introduzidas desde Setembro de 2025 nos primeiro e segundo ciclos do ensino básico.

Mesmo uma solução menos restritiva — permitir que o telemóvel entre na escola mas seja utilizado apenas em emergência ou por razões de saúde — divide praticamente ao meio os alunos: 49% concordam e 51% discordam.

Professores intervêm mais, mas há lacunas

O estudo mostra também que os professores estão hoje mais presentes na orientação da utilização da Internet do que estavam há sete anos.

Entre 2018 e 2025, a percentagem de alunos que refere ter professores a explicar como utilizar a Internet em segurança aumentou de 33% para 44%, enquanto os que dizem existir regras definidas pelos docentes passaram de 34% para 43%.

A evolução é ainda mais acentuada no apoio perante problemas online: apenas 16% referiam em 2018 que os professores os ajudavam quando alguma situação na Internet os incomodava; em 2025 são 37%.

Persistem, no entanto, áreas menos trabalhadas nas escolas, nomeadamente a fiabilidade das fontes, aquilo que os alunos fazem efectivamente no ambiente digital e a gestão do tempo passado online.

O retrato deixado pelo EU Kids Online 2025 é, assim, o de uma geração para quem a fronteira entre vida escolar, pessoal e digital é cada vez mais difícil de traçar: usa inteligência artificial para aprender e procurar respostas, encontra conteúdos potencialmente nocivos com grande frequência e, apesar disso, resiste à retirada do dispositivo que lhe dá acesso permanente a esse mundo.