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Trabalhar custa

Trabalhar custa. Sabiam-no os antigos e sabem-no as gerações que construíram Câmara de Lobos. Sabem-no os pescadores que saíram de madrugada para o mar, os agricultores que abriram poios nas encostas, os homens e as mulheres que plantaram vinhas no Estreito, cuidaram das cerejeiras no Jardim da Serra e fizeram produzir terrenos onde muitos julgariam impossível cultivar.

A velha fábula da cigarra e da formiga continua, por isso, bastante atual. Enquanto a Leste uma cantava, a outra preparava o inverno. Quando o frio chegou, descobriu-se que a formiga estava abastecida. Hoje, talvez alguém dissesse que teve sorte, que foi privilegiada ou que beneficiou de uma relação especial com a estação do ano.

A política também tem destas ironias. Quando a Câmara Municipal de Câmara de Lobos consegue financiamento, celebra contratos-programa ou apresenta candidaturas, há sempre quem prefira falar em privilégio. Dá menos trabalho do que reconhecer que, por detrás de cada candidatura aprovada, existem meses de preparação, projetos técnicos, pareceres, aquisição de terrenos, estimativas, reuniões, procedimentos e capacidade de execução.

Vem isto a propósito, de, num debate a que assisti sobre os 50 anos do Poder Local, ter sido sugerido que Câmara de Lobos beneficia de uma situação privilegiada na sua relação com o Governo Regional. A cooperação institucional existe e ainda bem que existe. Mas os resultados não chegam por favor, nem foram oferecidos. Resultam de projetos preparados e de trabalho feito atempadamente.

Quando abrem os avisos para financiamento comunitário, todos os municípios abrangidos têm a oportunidade de apresentar candidaturas. As regras estão definidas e são conhecidas. Os prazos também. A diferença está em saber quem tem os projetos prontos, os procedimentos adiantados e o trabalho de casa feito. As oportunidades podem ser iguais no papel, mas só as aproveita quem se prepara antes de elas chegarem!

O caminho entre os sítios da Igreja e das Fontes, na Quinta Grande, é um exemplo. Trata-se de uma estrada fundamental para a população, pela mobilidade, pela segurança e pelas condições que criará para o desenvolvimento da freguesia. A segunda fase representa um investimento próximo dos 9 milhões de euros e será concretizada através de contrato-programa. Este investimento não nasceu no dia em que foi anunciado. Quando surgiu a oportunidade, o Município tinha-o preparado, conhecia as necessidades e estava em condições de avançar. É isso que alguns chamam sorte. Nós chamamos trabalho!

O mesmo princípio aplica-se a muitos outros projectos. Estamos a procurar, e a aproveitar diferentes instrumentos de financiamento regional, nacional e comunitário, procurando todos os programas que possam ajudar a responder às necessidades das cinco freguesias de Câmara de Lobos. Mas esses apoios não caem do céu. É necessário identificar terrenos, resolver questões de propriedade, elaborar projetos, garantir condições de elegibilidade, preparar candidaturas e assegurar capacidade financeira e técnica. Quem só começa a pensar depois de o aviso abrir quase sempre chega atrasado.

A crítica da cigarra é legítima e faz parte da democracia!

Mas deixo uma sugestão à minha querida cigarra: antes de criticar também deve apresentar trabalho, projetos e alternativas. Não basta dizer que Câmara de Lobos recebeu mais, ou que é privilegiado! É necessário explicar o que se preparou, a que programas se concorreu e que soluções foram colocadas em cima da mesa. Não se pode acusar os outros de avançarem quando não se fez o caminho necessário para sair do mesmo lugar.

Câmara de Lobos não pretende qualquer tratamento privilegiado. Pretende estar preparado. Queremos que, sempre que surja uma oportunidade de financiamento, o Município tenha projetos em condições de concorrer e capacidade para os executar. É este o ritmo que estamos a imprimir para poder antecipar, planear, candidatar e realizar. Esta é a nossa velocidade embora custe a muita cigarra.

Termino, recordando às cigarras desta praça, aquele velho provérbio que recorda que só no dicionário é que a sorte e o sucesso aparecem antes do trabalho!

Na vida pública acontece exatamente o mesmo.