O poder de uma pergunta
A qualidade da nossa vida começa na qualidade das perguntas que fazemos
“Não percebo qual é a intenção de perguntarem a cada aluno, individualmente, em frente de todos os colegas, qual é a profissão dos pais? E é tão óbvio que as respostas condicionam parte do sucesso do ano lectivo! Não se faz, mãe.”
A frase saiu da boca da minha filha mais nova. Fiquei perplexa. Desconhecia que isto ainda acontecesse. Sobretudo agora, quando falamos tanto de privacidade, de dados pessoais, de saúde mental, de bullying, de inclusão.
A pergunta parece simples, mas não é. Uma aluna de 12 anos, sentada numa sala de aula, ouve os colegas responderem e percebe rapidamente que certas profissões provocam admiração e outras provocam silêncio.
A minha filha contou-me que alguns colegas ficam visivelmente desconfortáveis quando chega a sua vez. Não têm vergonha dos pais, mas já têm consciência de que podem ser julgados pela profissão que os pais exercem.
Há pais que trabalham na construção civil, fazem limpezas, conduzem autocarros, trabalham em restaurantes, lojas, oficinas... Pais que se levantam cedo, chegam cansados a casa, sustentam famílias e fazem trabalhos sem os quais a nossa vida quotidiana não funcionava.
São trabalhadores, são pais e, acima de tudo, são pessoas. E nenhuma profissão determina o valor de ninguém, nem de uma família.
Será que já pensámos a sério no poder que têm as perguntas que fazemos às crianças e aos adolescentes?
As perguntas também ensinam. Dizem-lhes, sem precisarmos de o explicar, aquilo que consideramos importante saber sobre elas.
Quando perguntamos “o que fazem os teus pais?”, estamos a olhar para o aluno através da família, da profissão, do estatuto.
Quando perguntamos “o que precisas para te sentires bem nesta turma?”, estamos a olhar genuinamente para o aluno, para as suas necessidades.
E a diferença é abismal.
Aos 12 anos, estão a construir uma resposta para uma pergunta muito maior: “Quem sou eu?”
Ainda estão a descobrir o que pensam, aquilo em que acreditam, o que sabem fazer, aquilo que querem ser e quais são os seus valores.
Precisamos de adultos que façam perguntas que abram espaço e criem relações saudáveis:
O que é importante para ti?”
“O que gostarias que os outros percebessem sobre ti?”
“O que precisas para te sentires bem nesta turma?”
“O que te faz sentir respeitado?”
“Quem está a ficar de fora?”
“Se pudesses mudar uma coisa na tua escola, o que seria?”
“O que poderíamos fazer para tornar a nossa turma um lugar melhor para todos?”
Algumas perguntas dão informação. Outras dão voz.
Eu gostava que a escola e as famílias fizessem mais perguntas que dessem voz. Que perguntassem aos alunos o que pensam antes de lhes dizer o que devem pensar. Que lhes dessem espaço para discordar, criar, errar, reparar.
Que lhes mostrassem que a opinião deles importa. Que podem contribuir para a vida da turma. Que ajudar um colega também é aprender. Que ninguém precisa de ficar para trás para que outro avance. Que uma turma pode ser uma pequena comunidade onde aprendemos a cuidar uns dos outros.
Educar é guiar. É ajudar uma criança a perceber que pode participar na construção do mundo que queremos: mais justo, mais atento, mais empático, mais humano, mais inclusivo.
Maria Montessori acreditava numa educação capaz de preparar o ser humano para construir um mundo melhor e mais pacífico. É também essa a educação em que acredito.
Educar para a humanidade não é ensinar palavras bonitas. É ter gestos que levem uma criança, um adolescente, a reconhecer a dignidade e a integridade, em si e no outro, a reconhecer e questionar uma injustiça, a reparar quando magoa; a escutar uma opinião diferente, a cuidar e a cooperar.
É mostrar-lhe que tem voz e também responsabilidade sobre a forma como a usa.
Por isso, quando a minha filha me disse “não se faz, mãe”, confesso que senti duas coisas ao mesmo tempo: alívio e orgulho.
Alívio porque percebi que continua vivo dentro dela um sentido de justiça que não se cala perante uma injustiça. Orgulho porque, naquela frase, reconheci muitas das conversas que temos tido ao longo dos anos.
As perguntas que lhe faço. As perguntas, algumas tão desafiantes, que ela me faz. As conversas à mesa. As histórias que discutimos. As situações que nos indignam. As vezes em que falamos sobre respeito, dignidade, liberdade, equidade, empatia e direitos humanos.
Não sabemos medir o que fica de todas estas conversas. Falamos, explicamos, damos o exemplo, desenhamos limites, pedimos desculpa, voltamos a conversar e seguimos a vida sem saber o que chegou realmente ao outro lado. Até ao dia em que acontece.
Uma filha de 12 anos ouve uma pergunta numa sala de aula, percebe o desconforto de alguns colegas, reconhece uma injustiça e chega a casa com uma frase:
“Não se faz, mãe.”
E eu penso: ficou. Alguma coisa ficou.
E ela não pensa como eu, e ainda bem. Porque uma das coisas que mais desejo é que ela pense por si, que confie no que sente, que questione o que não lhe faz sentido e que tenha coragem para se posicionar quando reconhece uma injustiça.
E isso ela já fazia aos quatro anos.
Hoje, aos 12, tem mais palavras para o dizer. Tem mais ferramentas para o compreender. E continua a olhar para além de si.
Para mim, isto também é educar para a humanidade: ajudar alguém a perceber que a sua voz conta, que o outro importa e que cada um de nós tem, desde já, capacidade e responsabilidade para tornar o lugar onde vive um pouco mais humano.