Era uma vez...
Era uma vez um país à beira-mar plantado, bonito de longe, como os contos que se contam às crianças. Mas bastava aproximarmo-nos para ver as casas pobres com famílias numerosas, a comida escassa, os pés descalços, as mãos gastas pelo trabalho, o analfabetismo de muitos adultos e as crianças que deixavam a escola demasiado cedo, muitas para trabalhar. Havia homens que partiam para França e outros países, para onde houvesse trabalho, e outros que fugiam à brutalidade da Guerra Colonial. Havia famílias, especialmente mulheres e crianças, que ficavam. E havia silêncio. Muito silêncio.
Nas ruas, nos jornais, nos livros e nas conversas. O lápis azul censurava tudo. Era preciso medir as palavras. A liberdade de expressão, de imprensa, de reunião, de manifestação, de associação e de participação política não fazia parte da vida das pessoas. Quem contrariava o regime podia ser perseguido, preso e torturado.
E havia mulheres. Mulheres que viviam com muito menos direitos, autonomia e escolhas. Raparigas a quem era limitado o acesso ao ensino. Mulheres que enfrentavam severas limitações no acesso ao trabalho, no direito à privacidade, no direito a viajar e na saúde, sem planeamento familiar. Mulheres que tinham a sua vida familiar condicionada por leis e costumes “tradicionais”, sendo muitas delas domésticas e que, perante uma gravidez indesejada, podiam acabar num aborto clandestino, em condições perigosas, pagando por vezes com a própria saúde ou com a própria vida.
Mas o reino dizia-se tranquilo. E talvez fosse, para alguns. Também havia memórias positivas. Mas tranquilo… só para quem não tivesse razões para ter medo.
Um dia, porém, chegou Abril. Chegou nas mãos dos soldados e nos cravos vermelhos que Celeste Caeiro ofereceu, nas ruas cheias de gente. E, de repente, aquilo que parecia impossível tornou-se possível: falar sem medo, escrever sem censura, reunir, protestar, escolher. Nos anos e décadas seguintes, as mulheres conquistaram direitos essenciais e passaram finalmente a exercer o direito ao voto, em igualdade com os homens. A educação expandiu-se. A democracia nasceu. O país não ficou perfeito. Nenhum país fica. Mas ficou livre.
Cinquenta anos depois, alguém suspirou:
– Antigamente é que era bom.
Talvez tivesse razão. Talvez fossem bons tempos – para quem não precisava de escolher entre o silêncio e o risco, para quem não era rapariga ou mulher, para quem não dependia de um marido para decidir, para quem tinha dinheiro, poder ou simplesmente a sorte de nunca ter precisado de enfrentar as paredes invisíveis daquele regime. Para tantas outras pessoas, o conto era diferente.
Por isso, quando ouvirmos certos movimentos dizerem que “antigamente é que era bom”, talvez devamos perguntar:
Bom para quem? Porque a História não é um álbum de fotografias onde escolhemos apenas as imagens bonitas.
E uma democracia, com todos os seus defeitos, continua a ter uma enorme vantagem sobre uma ditadura: permite-nos dizer que está tudo mal – e continuar livres depois de o dizermos.
E foi assim que o país aprendeu que o silêncio não é liberdade, a pobreza não é virtude e o medo não é segurança. Não acreditemos em contos do vigário que nos querem usurpar direitos humanos.