Queria uma casa com piscina e acabei a pensar no futuro da música
Em pleno período de férias, decidi fazer uma brincadeira de verão. Recuperei uma canção antiga, escrita num registo deliberadamente leve, sobre um desejo que se tornou cada vez menos modesto: ter uma casa com piscina. A letra inclui também um relvado para o cão, um mealheiro que não chega para concretizar o sonho, a esperança improvável no Euromilhões e uma namorada descontente com toda a situação.
É uma canção simples e bem-humorada, construída sobre a distância entre aquilo com que sonhamos e o que a realidade nos permite alcançar. Num tempo em que a habitação se tornou uma preocupação central para tantas famílias, reparei que a letra adquiriu um sentido que talvez não tivesse quando a escrevi. É uma brincadeira, mas as melhores brincadeiras costumam conter alguma verdade.
Peguei na guitarra, cantei a melodia e fiz uma gravação rudimentar no telemóvel. Apenas a minha voz, alguns acordes e uma ideia musical que permanecera guardada durante algum tempo. Como sempre me interessei pela relação entre música e tecnologia – e estava de férias, com algum tempo disponível — introduzi a gravação numa aplicação de inteligência artificial.
Neste ponto considero que é de realçar que, durante vários anos, lecionei no ensino superior disciplinas relacionadas com as novas tecnologias aplicadas à música e acompanhei as transformações provocadas pela informática na criação, interpretação e produção musical. Ainda assim, o que aconteceu surpreendeu-me.
Em poucos instantes, a aplicação reconheceu a melodia, identificou a letra e compreendeu a harmonia tocada na guitarra. Não lhe entreguei uma partitura ou uma gravação organizada em várias pistas. Entreguei-lhe apenas um esboço imperfeito, captado pelo microfone do telemóvel, e o sistema conseguiu extrair os principais elementos da composição.
Comecei então a dar-lhe orientações, de modo semelhante ao que fazemos no ChatGPT. Pedi uma versão pop-rock, mais próxima da energia que imaginava para a letra. Experimentei depois bossa nova, fado, música de inspiração clássica e outros ambientes sonoros. Alterei instrumentações, rejeitei propostas e procurei novas combinações.
Em pouco tempo, tinha mais de 50 arranjos da mesma canção. Naturalmente, 50 versões não significam 50 boas versões. Algumas eram previsíveis, outras excessivas e várias ignoravam o carácter da letra. O mais impressionante não era a qualidade de cada resultado, mas a rapidez com que se tornava possível explorar caminhos musicais muito diferentes a partir de uma gravação de voz e guitarra.
Há poucos anos, uma experiência desta natureza exigiria semanas ou meses: escrever arranjos, contactar músicos, reunir instrumentos, marcar ensaios, reservar estúdios e gravar diferentes versões. Hoje, grande parte dessa experimentação pode ser realizada por uma pessoa, diante de um computador, em poucas horas.
A tecnologia já tinha alterado profundamente a relação dos músicos com a criação. Os programas de notação facilitaram a escrita de partituras; a gravação digital permitiu cortar, corrigir e reorganizar o som; os instrumentos virtuais colocaram orquestras dentro de um computador; e os estúdios domésticos democratizaram meios anteriormente reservados a grandes estruturas profissionais.
Não estamos agora apenas a fazer mais depressa aquilo que já fazíamos. Estamos a transferir para a máquina uma parte do processo que dependia da escrita, da imaginação e da execução de vários profissionais. Esta mudança não deve ser observada apenas com entusiasmo ou medo. Um compositor pode testar rapidamente diferentes possibilidades, mas a facilidade tecnológica pode criar a ilusão perigosa de que saber pedir substitui saber fazer e, sobretudo, saber ouvir.
É precisamente por isso que a formação artística se torna ainda mais importante. Quanto mais soluções a tecnologia oferecer, maior terá de ser a nossa competência para as avaliar. Para transformar uma proposta genérica numa criação pessoal, continuam a ser indispensáveis cultura, técnica, sensibilidade e experiência.
As instituições de ensino artístico não podem limitar-se a proibir estas ferramentas, como se fosse possível preservar os modelos do passado fechando a porta à tecnologia. Também não devem adotá-las de forma acrítica, confundindo novidade com qualidade ou velocidade com conhecimento. A nossa responsabilidade será ensinar os estudantes a utilizá-las com autonomia, consciência e sentido crítico, aproveitando a sua capacidade de exploração sem perder o domínio da linguagem musical.
Continuando com a minha história inicial. Depois de escolher o caminho que me pareceu mais adequado, fui para estúdio gravar a voz em melhores condições e recorri a uma masterização profissional. O resultado nasceu de uma composição humana, de uma interpretação inicial com guitarra, de uma aplicação de inteligência artificial e do trabalho especializado de profissionais da música.
Não considero que a inteligência artificial tenha escrito a canção. A melodia, a letra, a harmonia e a intenção já existiam. A tecnologia produziu possibilidades, algumas interessantes e muitas dispensáveis. Coube-me escolher, interpretar e assumir a responsabilidade pelo resultado.
Seria, porém, errado afirmar que nada mudou. O computador deixou de ser apenas um instrumento ao serviço do músico. Tornou-se uma espécie de interlocutor e, talvez a diferença mais importante do futuro não esteja entre a música feita com inteligência artificial e a música feita sem ela, mas entre quem utiliza estas ferramentas apenas para produzir mais depressa e quem consegue utilizá-las para experimentar, pensar e criar melhor.
A experiência começou como uma brincadeira de verão e terminou com uma canção pop-rock e com a consciência de que estamos perante uma das maiores transformações da história recente da criação musical. Quem tiver curiosidade pode pesquisar no Google por Paulo Esteireiro “Casa com Piscina” e ouvir o resultado. Encontrará uma música sobre o sonho de ter uma casa, uma piscina e um relvado para o cão. Mas encontrará também o resultado concreto deste novo encontro entre a criatividade humana e uma máquina que já não se limita a obedecer: começou igualmente a propor.