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Degradação geral

Não, não podemos ignorar só porque é agosto e está meio mundo de férias: o estado de degradação coletiva em que vivemos merece atenção, crítica, reflexão e ação - e os exemplos deste fim de semana confirmam isso mesmo.

O Rali (Vinho) da Madeira é, inequivocamente, o maior evento desportivo regional. É o que, por força da tradição e das condições que se criam para o efeito, mobiliza mais madeirenses. É o que atrai maior atenção nacional e internacional, em termos de enquadramento competitivo, de participação e de projeção mediática. Por isso tudo, é, também, o evento desportivo que recebe mais financiamento de entidades públicas e privadas, entre as quais o Governo Regional e Câmaras Municipais. Ora, o que se passou no final da etapa da Encumeada, transmitido em direto por rádios e televisões e amplamente replicado nas redes sociais, não é, sob nenhuma forma, aceitável, nem um detalhe que possamos ignorar. Noutros desportos, era expulsão direta. Assuma-se por verdadeiro tudo o que se disse: nem é admissível que se atirem objetos a uma viatura participante, seja em que circunstâncias forem; nem é admissível que os protagonistas não estejam à altura do momento - de celebração e fair-play. Sabemos que a guerra vai longa, mas para o caso interessa sobretudo o exemplo dado, com toda a gente a ver e a ouvir, num espetáculo deprimente, patrocinado pelos contribuintes madeirenses - e o exemplo foi péssimo, sobretudo para as crianças e jovens entusiastas da modalidade. Foi a super-especial extra que todos dispensávamos.

Mas os espetáculos deprimentes do fim de semana não se ficaram por aí e o final do sábado desportivo traria o segundo episódio, nos Barreiros. O Torneio da Autonomia, que se transformou no Jogo da Autonomia por manifesta, mas pouco surpreendente, incompetência de quem dirige os destinos do futebol madeirense, ficou manchado pelo comportamento de alguns adeptos que escolheram insultar a plenos pulmões um clube regional, enquanto outros homenageavam um ex-atleta falecido. Outra guerra longa, com episódios censuráveis de parte a parte, mas que não tornam aceitável que a imagem que se transmita seja novamente tão má, num espetáculo promovido por uma entidade que recebe financiamento público, que pretendia celebrar a Autonomia e em que participaram dois clubes regionais que têm no Governo o seu principal patrocinador.

Dois episódios, dois exemplos de madeirenses contra madeirenses, com grau zero de respeito - individual e coletivo. Foi nisto que terminou mais uma celebração dos 50 anos da Autonomia. E já tivemos de tudo: cerimónias sem a presença do povo; sessões oficiais sem a presença do Presidente do Governo; e evocações históricas sem a presença de quem a construiu. Já nem o Chão da Lagoa serviu para disfarçar o fracasso da classe política que lidera a Região - de costas voltadas: entre si, com Lisboa e com o povo. Incapaz de resolver os problemas que todos os dias são denunciados na saúde, na habitação e no apoio social a quem mais precisa, enquanto as contas regionais batem no vermelho do défice que voltou. Pior, só mesmo o exemplo do deputado madeirense eleito pelo CHEGA à Assembleia da República: uma autêntica fraude, alegadamente envolvido em fraudes com subsídios e num alegado assalto que mais parece uma fraude.

A tudo isto somam-se as notícias da criminalidade que todas as semanas faz vítimas: homicídios; violência doméstica; assaltos; toxicodependência; problemas de saúde mental - tudo reflexos de uma sociedade degradada, de gente que vive mal, sem qualidade de vida e sem um horizonte de esperança. A sociedade dos mil euros mensais, condenada ao privilégio hierárquico ou partidário como salvação. Uma sociedade que começou o ano a normalizar um atropelamento por quem conduzia alcoolizado, numa terra em que as estradas se transformaram no símbolo máximo do excesso - de velocidade, de álcool ao volante, de condução perigosa, de fatalidades, de agressividade e falta de tolerância.

Assim vai o estado da Região: degradação social, degradação política, degradação geral. A quem interessa perpetuar este estado de sítio? E depois de tudo isto, o que é que nos resta? Acredito que é possível querermos mais para a nossa terra. Mais e melhor. Que é possível os mais velhos viverem dignamente, em vez de serem abandonados. Que os que mais precisam podem ter acesso à saúde no serviço público, sem terem de pagar o que não têm para irem ao privado. Que os jovens podem ter bons empregos e salários, sem lhes perguntarem de quem são filhos, ou de que partido são. Que os protagonistas podem estar à altura do momento e da Região que representam. Acredito na Autonomia que falta: a popular, construída por gente livre, que viva bem e com sentido comunitário.

Nos 50 anos da Autonomia, faltou-nos uma revolta: não de armas, mas de ambições comuns. De gente que queira mudar a Madeira, para melhor - todos os dias, em todas as áreas. Com menos extremos e mais líderes que dêem o exemplo. Chegará o dia?