António Gil Silva
Albuquerque denunciou, e bem, erro histórico sobre praia de PXO
Sempre achei que alguns políticos tinham sido ajudados pelos pais quando estes também eram políticos. Ter um pai político influente era mais valia no ritmo de crescimento dentro da organização partidária.
Todos nós conhecemos exemplos dessa boleia ou empurrão que favoreceu alguns, naturalmente em prejuízo de outros.
Não é caso original da Madeira. É universal, o que determina também assim ter sido na nossa jovem democracia. Todos conhecemos exemplos dessa influência familiar. Não é preciso nomear. Chegaram mais rápido ao topo pois foram ajudados por pai que lá estava em posição privilegiada para ajudar. Outros filhos não quiseram saber da política.
A questão é mais ética que legítima.
Sei do que falo pois fui vítima desse “bullying” partidário. O meu pai andava longe dos partidos.
Vem isto a propósito porque julgo haver uma dívida de gratidão para, pelo menos, um político já falecido mas não homenageado nestas celebrações dos 50 anos da Autonomia: António Gil Inácio da Silva, pai de, entre outros, João Cunha e Silva, esse mesmo, o presidente das comemorações deste meio século de jornada autonómica.
Não é provável que vá nomear o próprio pai com o destaque que é merecedor. Conheço o João para admitir isto.
Mas faço-o porque acho justo e merecido, ainda que tardio. Foi o fundador, militante número um e político activo do maior partido da Madeira nas primeiras décadas da Autonomia. Não sei se outros o fariam mas, para a História, fica o seu indesmentível legado. O seu a seu dono.
Foi com António Gil que me iniciei no PPD. Numas eleições em 1978. Recebi o impresso do partido com o meu programa para o domingo seguinte: ponto de encontro às 5h30 da manhã na Igreja do Campanário, num dia frio. Vinha a nomeação dos membros dessa equipa, chefiada por António Gil.
Era a minha estreia. Estava ansioso. Não sabia se tinha de discursar. Fui só, bem recebido e percebi que ia ser um dia longo e preenchido: Largo da Ribeira Brava, Tabua, Serra d’Água, S. João e S. Paulo.
Quando a missa acabou António Gil começou a falar com um megafone, reunindo a atenção da população presente, todos nós aprendizes das regras democráticas. Não havia oposição nas redondezas. Era só PPD.
De repente entrega-me o aparelho de som e diz-me: “diga umas palavras”. Foi a minha estreia. Pelo seu comentário posterior, agradável e amigo, percebi que me tinha safo.
Ficámos amigos apesar da diferença de idades. Éramos ambos democratas, autonomistas e do Nacional. Quando organizei a JSD foi preciosa a sua ajuda. Ficava satisfeito por eu contar com o João Cunha e Silva, nomeadamente quando pertenceu às estruturas nacionais. Melhor ficou quando o seu filho, por mérito próprio indiscutível, me substituiu na liderança da JSD, que deixei por limite de idade.
Nunca ultrapassou qualquer linha vermelha. Tudo com o respeito suficiente.
Foi ele, António Gil Silva, o fundador do PPD na Madeira. Tinha orgulho em ser o militante número um. De ter ido, em 1974, ao Porto falar com Francisco Sá Carneiro para o deixar abrir uma estrutura regional do PPD. É a partir daí, é após integração da Frente Centrista de Luciano Castanheira, António Aragão e Alberto João Jardim, entre outros, que o PPD/M se emancipa e adquire um estatuto autónomo dentro do partido.
Mas a intervenção de António Gil Silva foi determinante na fundação e organização do que seria o partido maioritário e hegemónico da vida política madeirense nos seus primeiros 50 anos - PPD/PSD.
Era vice-presidente da Assembleia Legislativa da Madeira quando João Cunha e Silva assume carreira política no parlamento madeirense. Era situação incómoda a presença simultânea de ambos. António Gil tinha a sua missão concluída: tinha fundado a maior força política madeirense, contribuído para o seu crescimento e o filho, único herdeiro político, tinha sido líder da JSD e ocupava lugar próprio na vida política madeirense. Alberto João Jardim diz a António Gil que “a partir daí eu trato do João”.
Sucediu-o na Assembleia Legislativa e, mais tarde, na presidência da Mesa da Assembleia Geral do Nacional. Com muito orgulho.
Uma figura marcante da nossa História política.
No Porto Santo tudo pode acontecer
No meu último artigo escrevi que no Porto Santo tudo pode acontecer. Não esperava pela interdição da praia em dia de Agosto. Tudo por falta de regras claras e exigentes nas obras feitas no verão. Cada um faz o que quer. O governo faz quase tudo. Os particulares o que lhes deixam. Nada feito pelos portosantenses. Fazem-me lembrar os milionários que têm ilhas suas. Usufruem.
Quando se quer vender um produto fazemos o possível por mostrar qualidade e promover as suas vantagens. Quanto mais caro é o produto mais nos devemos esforçar para que seja o preferido entre a concorrência. Esta regra, simples e universal, não é verdadeira no Porto Santo. Não quero ofender seja quem for mas o exemplo deste verão é demasiado escandaloso. Não são só obras. É também desleixo e “deixa assim”.
Posso falar deste modo porque pago impostos, muitos, no PXO. Também por isso pretendo a valorização da Ilha e do que lá se faz. A excelência do destino parece não ser suficiente motivação para quem tem a responsabilidade pelo que acontece.
O Porto Santo recebeu o principal para que a sua população viva com dignidade e qualidade de vida. O que continua a ser feito. Mas nunca ninguém se interessou por investir seriamente como num plano para ser um destino turístico de qualidade. Exceção ao campo de golfe. Como Deus criou uma praia fantástica, todos acham que isso é suficiente. Viver da praia.
Felizmente, Miguel Albuquerque, com a sua visão e inteligência, disse que esse erro histórico tinha de acabar. Suficiente para levantar a voz aos inúteis.
Da parte dos locais não ouvi nada. Nem pio.
Difícil aceitar que as empresas públicas da Madeira vão ao Porto Santo e parece fazerem o que lhes apetece. Estão pouco interessadas nas consequências. Porque vão mudar os canos da água ou melhorar a sua captação subterrânea, acham-se livres de obrigações. No Funchal, seguramente, não fariam do mesmo modo. Pior é ninguém local se impor contra o que está errado e é mal feito. É melhor não se chatear.
Dois exemplos: as obras, sem fim, ao longo da estrada regional entre o porto e a Calheta. Já vai em duas férias de verão. Há mais para o ano que vem? Ninguém explica e pede desculpa pelo incómodo e prejuízo causado ao destino mais caro do arquipélago.
O outro é catastrófico e terceiromundista: o carrossel que a APRAM obriga as viaturas a fazerem no acesso ao Lobo Marinho. Tanto no Porto de Porto Santo como no Porto do Funchal há funcionários que mandam tanto como os chefes e ninguém parece querer ajudar uma viagem cara e que não devia envolver stress. No Porto do Funchal há lugar para casas da música, hotelaria, esplanadas, zona comercial, estacionamentos, centro cívico e social, lota e descarga de peixe, doca da marinha de guerra, escritórios portuários e passadiços suspensos, mas não há espaço para um navio, utilizado por dezenas de milhares de passageiros, carga e viaturas, ter operação de embarque e desembarque segura e eficiente. No PXO parece a dolorosa marcha na chegada aos campos de concentração. Desculpem o exagero. Mas ninguém quer saber de nada.
A malta da Madeira organiza, então deixa andar. Não é para “nós”: provérbio local.
Nota: estive uma semana em Tavira. Não me incomodaram com qualquer obra pública.