O preço da sustentabilidade
Tanto quanto se sabe, só temos um planeta para habitar. Por vezes, esquecemo-nos disso e damos como garantido que os recursos da Terra estarão infinitadamente ao nosso dispor. Ao regressar à realidade, importa ter noção de que só se pode falar de sustentabilidade se a essa conversa se juntar o bom senso dos equilíbrios. Não podemos aceitar que as transições necessárias à sustentabilidade ambiental se façam de forma abrupta e irresponsável, aumentando o custo e comprometendo a qualidade de vida.
Com o pacote Fit for 55, a União Europeia apresenta um conjunto de medidas com o objetivo final de atingir a neutralidade climática em 2050. A derrogação para 2030 das metas intermédias quanto à redução de emissões de gases com efeito de estufa sinaliza a perceção da dificuldade desta missão. Mas, mais do que isso, importa evidenciar que não será este diferencial de cinco anos face ao inicialmente estipulado que fará cumprir as exigências. Ou, pelo menos, que fará cumpri-las sem que haja um impacto dantesco nas economias ultraperiféricas. Se houver intransigência por parte dos organismos europeus quanto aos limites temporais para a execução deste plano, a Madeira será fustigada dentro de pouco tempo por uma ascensão brutal dos preços dos transportes aéreos e marítimos.
Na mobilidade aérea, a aplicação do aumento exigido da taxa de carbono onerará e muito as companhias e, por extensão, fará disparar os preços dos voos. No caso do transporte marítimo – destacando a ligação entre Madeira e Porto Santo – estaremos perante um de dois problemas. Para cumprir as metas de redução de emissões, a atual ligação ferry far-se-á a menos nós, reduzindo a velocidade e, como tal, aumentando o tempo de viagem. Ou, em alternativa, optando-se pela introdução de um navio com tecnologia que siga as normas europeias, teremos de estar preparados para despender vários milhões de euros na garantia da ligação marítima entre ilhas. A promoção de políticas de descarbonização é crucial para garantir que há planeta no futuro, mas deve ser acompanhada de equilíbrios que diluam o impacto nas economias locais.
Falar de sustentabilidade na Madeira é falar de economia azul. Com as Selvagens, a nossa Região Autónoma possui a maior reserva natural da Europa. E das duas, uma: ou as regiões ultraperiféricas são remuneradas pelo património natural que protegem, ou a União Europeia redefine os limites e as restrições relativas à exploração dos solos marinhos. A natureza é para continuar a ser estimada, isso é ponto assente! Mas a Região não se pode dar ao luxo de não rentabilizar recursos minerais que detém e cuja extração é essencial à investigação e ao desenvolvimento tecnológico.
A história da Madeira demonstra as Levadas como exemplo de que o equilíbrio entre natureza e desenvolvimento exige decisões e ações complexas na procura por recursos, soluções e acessibilidades. Com responsabilidade e sempre com respeito pela natureza de que somos feitos.