Raios, ovelhas e livre-arbítrio
Recentemente, li uma notícia sobre a morte subitânea e calamitosa de 97 ovelhas, atingidas por um único raio, num aprisco situado nas montanhas suíças, a 2500 metros de altitude. As ovelhas, todas essas e mais 80 que sobreviveram, estavam albergadas no mesmo local para se protegerem de lobos. Se tivessem ficado livres, num redil, um lobo provavelmente não teria matado mais do que umas 10, seguindo o seu instinto de matar primeiro e comer depois.
Apareceu nesse instante à minha frente uma imagem mental vívida deste infortúnio paradoxal enquanto uma parábola verídica do mundo em que o livre-arbítrio está habitualmente a ser substituído pelo efeito manada (neste caso, seria mais apropriado chamá-lo “efeito rebanho”).
Neste fenómeno social e psicológico os indivíduos alinham os seus comportamentos e crenças com a maioria, impulsionados por instintos evolutivos de sobrevivência e pela pressão para evitar o isolamento, perdendo a capacidade de pensamento crítico ou abdicando (conscientemente ou não) da tomada de decisão autónoma. Anula temporariamente o livre-arbítrio, pois substitui o julgamento consciente por um “piloto automático” de conformidade social e sobrevivência.
Conforme Nietzsche, a “moral de rebanho” refere-se à submissão a princípios padronizados, sem reflexão, para corresponder ao senso comum.
E então, “cabrum!”, surge nas redes sociais a notícia sobre a nova canção da figura célebre: toca a ouvir, comprar e partilhar os seus sentimentos sobre a mesma. “Shazam!”, aparece na televisão um produto utilizado por outra figura célebre: toca a correr para a loja ou encomendar online. “Cra-koom!”, e alguém a quem foi imputada alguma maldade logo se vê abandonado por milhares de seguidores. O barulho da trovoada publicitária satura e dessensibiliza o nosso cérebro ao ponto de perdermos a capacidade de raciocinar livremente e, às vezes, nem nos apercebermos disso. O pensamento individual, caracterizado pela verdadeira liberdade de pausar e questionar os impulsos automáticos, acaba por ser substituído pela reação instintiva que é a de seguir o rebanho.
Os raios alegóricos, lançados pela gente que sabe muito bem como manipular a mente humana e apelar aos seus instintos mais básicos, fazem com que muita gente acabe assimilada num rebanho que se vira repentinamente na direção do estímulo e corre, sim, foge em debandada, para chegar lá primeiro, para não ser privado, para não ficar diferente, para se conformar com a moda passageira. Os “barões de consumismo” (a distinguir, e muito bem, de consumerismo), que manipulam cada vez mais o nosso mundo, contam mesmo com o nosso medo de exclusão e de inércia, ou até perda de capacidade, de exercermos o livre-arbítrio antes de cedermos ao impulso irracional. É mais fácil poupar o esforço cognitivo ao copiar o comportamento alheio em vez de analisar situações complexas. É mais fácil prescindir da responsabilidade individual, facilitando a adesão a comportamentos que normalmente seriam questionáveis.
Ao contrário, o livre-arbítrio é a capacidade de escolher e agir de acordo com a própria vontade, valores e julgamento, mesmo diante de pressões externas. A ideia pressupõe autonomia e responsabilidade pelas próprias decisões. O efeito de manada e o livre-arbítrio representam assim duas forças que influenciam o comportamento humano, mas em direções diferentes. No entanto, livre-arbítrio não significa agir sem qualquer influência, mas sim ter a capacidade de refletir sobre essas influências e decidir conscientemente se faz sentido segui-las ou não.
Assim, o verdadeiro contraste está no grau de autonomia da decisão: enquanto o efeito de manada privilegia a imitação do comportamento coletivo, o livre-arbítrio enfatiza a escolha consciente e responsável do indivíduo.
E enquanto qualquer pessoa com senso comum foge ou se alberga de raios e trovões, os raios e trovões desta parábola parecem, paradoxalmente, atrair em vez de afugentar. As pobres ovelhas seguiram o seu instinto e conformaram-se com a decisão do pastor, terminando do modo que terminaram. E quem será o nosso pastor? Será que precisamos dum pastor destes? Ou podemos exercer o nosso livre-arbítrio e a nossa independência? E será que assim o “lobo/barão” já não chegaria a tantos?