As “Babes do PCC”
Possivelmente, caro leitor, pelo título, posso já ter denunciado sobre que tema me debruçarei hoje. As discussões públicas estão encharcadas de puritanos bafejados por uma santimónia moral que aplicam aos outros e raramente a si próprios, deixando pelo caminho os princípios e valores mais básicos da vida em sociedade - a decência, o respeito, a dignidade e o brio.
Élia Ascensão é suspeita de um crime de falsificação de documentos e de um crime de abuso de poder. A par disso, as tais “babes do PCC” são suspeitas de 2 crimes de abuso de poder, 15 crimes de falsificação de documentos e 15 crimes de falsidade informática qualificada - às quais lhes fora aplicada a suspensão do exercício funções (entre outras medidas de coação).
O comunicado de Élia Ascensão um guião formatado para qualquer outro dirigente político que possa estar, ou vir a estar, a braços com a justiça.
Disse Élia Ascensão, sobre a medida de coação TIR: “a menos gravosa do nosso ordenamento e a que resulta automaticamente da simples constituição como arguido”. Tem toda a razão. Acrescentou: “recordo que a condição de arguida não é uma condenação nem constitui, por si, indício de culpa”. Tem toda a razão. Rematou, finalmente, com “assiste-me, como qualquer cidadão, a presunção de inocência, (...) que se mantêm até ao trânsito em julgado de eventual decisão”. Tem toda a razão. Mas, quanto às incongruências implícitas nesta reação já lá iremos.
O JPP escolheu seguir uma lógica intimidatória da liberdade de imprensa, colocando nas redes sociais uma comparação entre a cobertura jornalística deste caso com o de 24 de Janeiro de 24, colocando em causa o trabalho de jornalistas madeirenses e decisões puramente editorais - um caminho tão descabido quanto falso. No seguinte à operação, este Diário fez capa com uma fotografia em grande plano de um dos detidos do dia anterior, o título era “Operação judicial atinge cúpula do PSD”, e note-se que as letras vinham a cor de laranja.
É neste modus operandi que o JPP viceja, falseando factos sem pudor, urdindo uma narrativa falsa e usando a suspeição como forma de coação - como se a liberdade de imprensa fosse uma concessão sua e a independência editorial uma afronta pessoal. Naquela publicação execrável, procura-se enxovalhar jornalistas e lançar sobre a comunicação social a sombra insidiosa da intimidação partidária, num expediente próprio de quem proclama a liberdade enquanto dela retira proveito e reclama obediência assim que o contraditório lhe bate à porta.
A posição assumida pela única Élia Ascensão está longe, muito longe, de tudo quanto o partido apregoou e exigiu num passado recente.
Quem não se recorda das vezes em que o JPP atacou membros do Governo do PSD pelo simples facto de terem sido constituídos arguidos? A esses, Élia Ascensão explica como funciona o Estado de Direito - explica-o, naturalmente, porque agora lhe convém.
Quem não se recorda dos que se vangloriaram de ter participado na dita “fiscalização” que desembocou na Operação Zarco? A esses fiscais, Élia Ascensão explica como funciona o Estado de Direito - explica-o, naturalmente, porque agora lhe convém.
Quem não se recorda de, na véspera de 24 de janeiro de 2024, já se encontrarem na Madeira jornalistas vindos de Lisboa, avisados para cobrir o espetáculo deprimente que se montava, enquanto o JPP permaneceu num silêncio quase devoto? A esses mudos por conveniência, Élia Ascensão explica como funciona o Estado de Direito - explica-o, naturalmente, porque agora lhe convém.
Quem não se recorda do JPP, no dia seguinte ao início das buscas, ter convocado uma conferência de imprensa para lançar mais gasolina sobre a fogueira, multiplicando suspeições e insinuações em torno de uma alegada corrupção? Aos próprios camaradas, Élia Ascensão explica como funciona o Estado de Direito - explica-o, naturalmente, porque agora lhe convém.
Quem não se recorda do JPP ter desvalorizado o facto do juiz de instrução criminal ter escrito, no despacho da Operação Zarco, que “não há indícios da prática de qualquer crime”? Aos zeladores seletivos da justiça, Élia Ascensão explica como funciona o Estado de Direito - explica-o, naturalmente, porque agora lhe convém.
Quem não se recorda de Élvio Sousa ter afirmado que “ninguém é detido de forma ligeira”? Ao próprio, Élia Ascensão explica como funciona o Estado de Direito - explica-o, naturalmente, porque agora lhe convém. Se eu escrevesse este artigo com o mesmo fundo de displicência, bastar-me-ia devolver-lhe a fórmula: “ninguém é suspenso de funções de forma ligeira” - acontece que eu já sabia como funciona o Estado de Direito, mesmo antes de Élia Ascensão o descobrir.
Para uns parece mesmo valer tudo. Ventura ao pé dos puritanos do JPP, é um menino de coro.
A 17 de Dezembro de 2025, Élvio Sousa disse: “Nenhum poder está livre de ser aprisionado. E, isto serve para todos”. Talvez, Élia Ascensão tenha pouco por onde procurar - e para bom entendedor meia palavra basta.