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Crónicas

Serão as câmaras a mandar no turismo?

O PIB passou para as mãos dos municípios. Controlam mais de metade do turismo

A realidade parece indiscutível: Porto Santo é o futuro promissor da Região Autónoma da Madeira. Assim o queira o povo de Porto Santo. Nenhum outro território na Região tem a aptidão de Porto Santo para realizar um programa de desenvolvimento global e sustentável. A aptidão e a infraestrutura necessária.

A Madeira é complexa. O Porto Santo não.

Ninguém olha para a Madeira e Porto Santo sem perceber que o turismo se tornou a única actividade económica possível desenvolver com sucesso. Tudo o mais não será suficiente para dar emprego bem remunerado à nossa população.

Olhando para a Madeira, torna-se simples afirmar que a agricultura, a pesca e a indústria, não são capazes de proporcionar o volume de trabalho para suportar economicamente os nossos duzentos cinquenta mil habitantes.

A agricultura é dificultada pela orografia, a pesca pela profundidade do mar e a indústria pela ausência de matérias primas para transformar. A insularidade onera a exportação e o mercado interno é diminuto. É claro que encarece o custo de vida. A falta de mão de obra, transversal a toda a economia, é flagrante comprometimento com as iniciativas a realizar.

Fica a expectativa de saber quanto a inteligência artificial irá aliviar na procura por emprego. Os especialistas garantem que, na hotelaria e em dez anos, a redução de emprego será de trinta por cento. Ajuda mas não resolve.

Só que, para quem tem o turismo por actividade económica principal, a Madeira tem “handicaps” que dificilmente superará.

Desde logo o aeroporto se tornou um bloqueio à actividade turística. Há muitos períodos de inoperacionalidade, sem previsão e, principalmente, sem solução. É condicionante terrível para o nosso principal negócio. Modera as expectativas de rentabilidade, reduz o investimento em novos hotéis, afasta os grupos internacionais pela construção de grandes projectos e, apenas, incentiva, por enquanto, o crescimento do alojamento local. Não fora este, era a estagnação.

O número de camas hoteleiras praticamente não cresce, enquanto prolifera o alojamento local. Serve para gabar aumento estatístico na principal actividade económica.

Os recordes de crescimento do PIB, são reais mas devem-se ao alojamento local. Não só. Mas sobretudo. Caricato não entenderem que a limitação desta actividade será redutora do crescimento do PIB, o que coloca, nas câmaras municipais e na intensidade do alojamento local, as expectativas económicas próximas. Que melhor dizendo não passa de turismo residencial, denominação que devia substituir a actual de AL.

Ou seja, o ritmo do crescimento do PIB passou para as mãos das câmaras municipais, o que se revelará um absurdo.

A pequena dimensão dos nossos municípios, a realidade própria da Região, a dependência económica do turismo, os obstáculos naturais e as necessidades financeiras regionais para infraestruturas, impõem uma coordenação transversal do turismo residencial na Ilha da Madeira. Não podemos ter metade do turismo dirigido pelo governo e a outra metade dividida por dez câmaras.

Vou dar um exemplo. O alojamento local já é responsável por metade do negócio do turismo na Madeira. Passou de praticamente zero para cinquenta por cento. Conhecem alguma câmara municipal que tenha criado um departamento especializado em turismo, liderado por vereador com esse crucial pelouro? Não, não conhecem.

E, Deus nos livre se vierem para a zona de intervenção turística dez diferentes “secretários regionais” de turismo, todos e cada um com as suas ideias, pressão partidária e influência “lobbysta”. Neste momento temos quatro diferentes orientações políticas partidárias nos municípios da Madeira. Cada uma com a sua visão própria, havendo a acrescer a opinião global que cabe ao governo regional, traduzida no seu programa.

Repito: não podemos ter metade da política de turismo a cargo da Assembleia Legislativa e do Governo e a outra metade distribuída numa lógica (?) local, muito provavelmente discordante ou mesmo incompatível.

É preciso bom senso!

A realidade para Porto Santo é distinta. Isto porque a Ilha Dourada existe num contexto próprio, sem a complexidade antes descrita para a Madeira. São cinco ou seis mil cidadãos.

Em Porto Santo é possível compatibilizar a intervenção regional e local. Uma única câmara municipal. Com debate e entendimento pragmático é possível perfilhar uma ideia e modelo de desenvolvimento que protagonize liderança política coerente e objectiva. Em cada momento teremos protagonistas partidários distintos sendo crucial garantir a continuidade de uma matriz previamente assumida e disciplinadamente conduzida.

A qualidade será o turbo do motor desenvolvimentista. Harmonia e sustentabilidade a todos os níveis. Com plena satisfação dos portosantenses, dos que residem por vontade própria e dos que lá fizerem turismo.

É tudo planeamento e bom senso. Competência obrigatória. E como dizem: amor pelo Porto Santo.

Na próxima crónica darei a minha opinião.