O Circo Américo-Suiço e o Fim dos Deuses
1. O Tio Sam e os Rapazes dos Recados
Este Mundial de futebol é um monumento sem limites à desfaçatez. O torneio que nos prometeram ser “abrangente e aglutinador” — a sublime desculpa para enfiar 48 seleções num funil — revelou-se o maior embuste geopolítico do século. O que deveria ser uma festa universal transformou-se, à descarada, numa extensão de políticas discricionárias e caprichos de bastidores dos Estados Unidos, aplicada a coanfitriões amestrados e perante a complacência de uma FIFA vergonhosamente subserviente.
É preciso ter estômago para assistir à liberdade de circulação ser transformada numa piada de mau gosto: árbitros, adeptos, jornalistas e atletas tratados como suspeitos habituais, brindados com vistos recusados, entradas bloqueadas e revistas humilhantes em aeroportos. O caso do Irão — obrigado a dormir no México para poder jogar em solo norte-americano — é de um surrealismo digno de uma distopia de vão de escada. Mas o verdadeiro pináculo do ridículo foi a interferência direta de Donald Trump para despenalizar um jogador da seleção norte-americana após uma expulsão direta. Pelos vistos, as regras do jogo agora também se decidem na Sala Oval.
Neste plano inclinado onde a ética desportiva escorrega até ao esgoto, sobram bilhetes a preços exorbitantes e as patéticas paragens de três minutos para “hidratação”, cujo único líquido que fazem correr é o dinheiro dos anúncios televisivos. No topo desta pirâmide de ganância senta-se Gianni Infantino. O paladino da transparência aufere uns modestos quatro milhões de euros anuais e saliva pela meta de arrecadar mais de onze mil milhões de euros de receita. Perante tamanha mercantilização do futebol, a única atitude digna e desportiva teria sido uma: o boicote absoluto e em toda a linha.
2. Portugal: Muitos Egos, Nenhuma Chama
A participação de Portugal foi, previsivelmente, mais um balde de água fria na alma nacional. Assistimos ao triste espetáculo de uma Seleção sem chama, povoada por jogadores manifestamente fora de forma, mas detentores de misteriosos “lugares cativos” que nem a pior exibição consegue beliscar. No banco, um selecionador cinzento e dócil, mais preocupado em gerir interesses corporativos e egos sobredimensionados do que em construir um coletivo. E, no meio desta mediocridade, a nossa habitual especialidade: a incapacidade crónica de proteger a nossa maior lenda. Enquanto o Brasil consolou as lágrimas de Neymar, a Croácia venera Modric e o Egito blinda Salah, a seleção portuguesa preferiu a cobardia do silêncio, deixando Cristiano Ronaldo à mercê dos lobos. Aliás, bastava termos aprendido com a Argentina, que soube proteger o seu Messi ao ponto de a própria FIFA — numa comovente demonstração de caridade desportiva — estender a passadeira vermelha e dar uma mãozinha na hora de empurrar o astro para a glória eterna - e para lá caminha novamente. Por cá, preferimos o desamparo. Temos, no papel, uma constelação de grandes executantes; em campo e nas estruturas, fomos uma péssima equipa e uma pátria ingrata. Em suma: uma prestação confrangedora num Mundial que urge esquecer.
3. Cristiano: A Eternidade Não Aceita Ingratos
O tamanho da tua grandeza, Cristiano, sempre assustou os pigmeus do intelecto. O sucesso incomoda a mediocridade e a excelência, num país de brandos costumes, gera frequentemente uma enorme incompreensão. Foste, és e serás o sinónimo absoluto de rigor, disciplina férrea, liderança e de uma fome insaciável de vencer. Inspiraste — e continuarás a inspirar — gerações de miúdos que, vindos do nada como tu, ousaram desafiar o destino. Provaste ao mundo que as origens não são uma sentença, que o talento sem suor é um desperdício e que a força de vontade quebra qualquer barreira considerada intransponível. Saíste da nossa Madeira para reescrever, a letras de ouro, a História do desporto mundial.
É incrivelmente fácil, agora que a cortina desce e o cansaço pesa, ver os moralistas de ocasião apontarem o dedo ao fim do teu caminho. Mas a verdade nua e crua é que os mesmos que hoje te criticam com azedume são os que, ontem, fechavam os olhos e imploravam de mãos postas por um milagre que só tu sabias operar. Carregaste o peso de uma pátria inteira às costas quando mais ninguém tinha rins para o fazer.
O futebol sabe ser cruel e este desfecho de carreira está a anos-luz do que merecias. Contudo, a ingratidão ruidosa do momento jamais beliscará a tua eternidade. O teu legado está blindado contra o veneno dos pequeninos, a tua história está escrita na pedra e o teu lugar no topo do mundo é, e será sempre, intocável.
Obrigado por tudo, Cristiano.”