DNOTICIAS.PT
Artigos

O Elianismo

Acredito que Ricardo Miranda continua a ser o timoneiro indicado para fazer navegar o navio que lhe entreguei em 2018

O Pacto Estratégico 2024-2036 elaborado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) está muito bem estruturado: define os pilares ideológicos em que assenta, os stakeholders de suporte, os objetivos ambiciosos e o trajeto a trilhar.

O futebol mundial deixou de ser um desporto prazeroso vitoriano. Num tempo pós capitalista, mas com muito Capital na Nuvem (Cloud), o futebol é já um enorme monopólio ao nível das grandes empresas de inteligência artificial, de que também beneficia. Com o exponencial desenvolvimento tecnológico, cada vez mais se começa a assistir a uma confrontação entre o ser humano e a máquina; na experiência desportiva cada vez mais maximizada, o confronto continua a ser entre a inteligência artificial e a inteligência natural.

Aparentemente centralizador, este pacto é sobretudo aglutinador e regularizador dos vários fatores definidos, para depois se descentralizar nas diversas regiões continentais e insulares. A Direção Regional do Desporto (DRD) criou também um pacto estratégico da Região Autónoma da Madeira (RAM) para o futebol.

Para a sua aplicabilidade é fundamental que se verifiquem vários pressupostos:

a) A cientificação decisiva da fisiologia de esforço pelos atletas e por todos os prestadores;

b) O conhecimento da hermenêutica das leis gerais do direito e especificamente, do direito autárquico;

c) Um financiamento público-privado devidamente regulado que inclua o Estado, as Autarquias, as Agremiações Desportivas e ex-futebolistas profissionais que hoje possuem enormes capacidades monetárias;

d) Em caso de necessidade, reformas cirúrgicas do Estado que consubstanciem todos estes pressupostos.

Se este projeto for devidamente aplicado, Portugal seguramente será um dos países de topo europeu e mundial a médio prazo.

A Associação Desportiva da Camacha (ADC), que dentro de dois anos completa 50 anos de existência, tem assegurado uma progressão harmoniosa e ascendente. É o clube nacional com maior longevidade no Campeonato de Portugal. Com o eclipse do União da Bola, atingiu o pódio do futebol regional: depois do Clube Desportivo Nacional (CDN) e do Clube Sport Marítimo (CSM) a ADC é desde há alguns anos a terceira agremiação na RAM.

Em Santa Cruz, a cadeira presidencial é agora o centro do universo. Conquistado o poder, o município apoderou-se dos direitos adquiridos e esqueceu-se dos deveres autárquicos. As respostas a muitas tentativas de diálogo têm sido constantemente numa linguagem de soberba, destrutiva e ciumenta. Nunca houve qualquer respaldo municipal positivo. Como na política em geral, há uma preocupante erosão cultural: veja-se como o Presidente da República foi recentemente avaliado.

Desde a subida ao poder do último partido, a ADC passou a ser um qualquer cliente pagador no concelho.

No presente tempo, defino como Elianismo este comportamento político, um feudalismo primitivo pré agostiniano, como quando a Terra ainda era o centro do universo.

Santo Agostinho de Hipona lançou precocemente as sementes que conduziram mais tarde ao renascimento e à modernidade: para se saber, é preciso compreender e acreditar; acreditando, compreende-se melhor e obtém-se a sabedoria e a compaixão.

Acredito que Ricardo Miranda continua a ser o timoneiro indicado para fazer navegar o navio que lhe entreguei em 2018, em boas condições. Não é devido dar importância a quem nunca teve importância na evolução da ADC. O grito de Ricardo Miranda não é um grito de guerra ou despudor; é um grito de profunda solidão e um alerta público à incompreensível política municipal, agora representada por Élia Ascensão.

Se a tivesse escutado, Giordano Bruno tê-la-ia levado consigo para a fogueira.

Esperamos bom senso em ambos os protagonistas. As experiências em muitos concelhos madeirenses justificam-no. Não se pode igualizar quem há muitos anos tem mérito diferente.

A racionalidade é desprezada quando quem está no poder não a reconhece.